sábado, 5 de dezembro de 2009
Os olhos que moram na caixa de ferramentas-Rubem Alves
Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física.
William Blake sabia disso e afirmou: "A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê". Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.
Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.
Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, "seus olhos se abriram". Vinicius de Moraes adota o mesmo mote em "Operário em Construção": "De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa - garrafa, prato, facão - era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em construção".
A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas - e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não gozam... Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.
Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras. Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: "A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas".
Rubem Alves
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
Sozinho "essa música é muito bonitinha" - Caetano Veloso
Tá bom vai. Admito. É verdade. Eu simplesmente ignorava Caetano Veloso. Mas era sem intenção. Era um desdém sem graça sabe? O achava um tanto arrogante, baiano que se achava o último biscoito da terra. Então, entregava minha paixão toda a Chico Buarque. Este que aprecio até ficar bebinha da silva. Não há uma canção de Chico que não goste. E não há uma só vez que não fique longe, em outro mundo quando o vejo tocar/cantar. É o Chico tem meu amor e pena que ele não sabe disso. Mas, eu tenho que assumir, que Caetano ultimamente, tem tocado muito por aqui. Faz pelo menos duas semanas que estou com essa na cabeça. E sei bem que a letra não é dele (é do Peninha), mas essa eu só gosto dele cantando. E fiquei olhando, olhando e olhando mais um pouquinho no começo da semana ele cantar, esse video achei no youtube e fiquei encantada. Ele quase faz como Chico Buarque, ri discretamente em algumas partes, ar de quem quer dizer ou dar entender que lembrou dela ou daquele momento. A maioria pensa/diz/escreve - eu comendo Caetano. - eu comeria Caetano etc e tal. Não eu. Não o comeria. Só pensei em quem ele comeu se o fez, com quem, como, de onde era. Quando jovem? Mais velho? Agora? Que o fez lembrar assim, com sorriso gostoso. Essa canção o fez lembrar de alguém e algum momento de prazer, amor, sem lá mil coisas ao mesmo tempo. É bem assim, se perguntando - onde está você agora? Nossa, viajei, quando o vi cantando desse jeito. Adoro pessoas q se entregam, que tem amor ao que faz, quando toca acende chamas de paixão. E digo em relação a tudo, trabalho, relacionamentos, amigos, tudo sabe. E tenho certeza o maior prazer/tesão do Caetano, Chico (ainda) é quando canta. E não adianta, toda vez é diferente. Pergunte pra ele e dirá sem medo de errar. O dia que não fizer com tesão, é pq a morte bate à porta.veio levar o resto. Taí, eu preciso ter/sentir mais tesão na minha vida. Para tudo e em tudo. Fazer com paixão. Viver mais sem medo de errar. Por que no fim todo mundo erra mesmo. Então, mesmo sendo um tanto triste essa letra, eu ouço, e com o maior prazer do mundo. Por que é sexta, a semana foi longa e corrida, o fim de semana será ainda mais, mas e daí. Qual é o problema? Tem gente que acha a tristeza, eu sempre dou um jeito e acho tristeza e de brinde alguma alegria. Não existe este que seja completamente triste e/ou feliz. De tudo a gente é um pouco. E aqueles que não sabem tratar momentos difíceis com alguma alegria, não saberá tratar a felicidade, a alegria quando chegar e irá desperdiçar. por não saber lidar ou reconhecê-la nos momentos de sozinho, como nessa canção bonita. E ela chega baby.Quem? A felicidade, alegria, uma hora chega. Então, eu vou dormir...pq a chuva tá caindo, e eu vou deitar ouvindo pingos de chuva e Caetano cantar pra mim. E vou sorrir, enquanto pego o travesseiro, olhar a tela e dizer - eh, Caetano que sorriso lindo hein? A bichinho danado. e sabe o que é? "É que um carinho às vezes cai bem, Eu tenho meus desejos e planos secretos..."
E concordo quando ele ri e diz "é tão bonitinha"..."essa música é muito bonitinha" ...e é mesmo bonitinha.
domingo, 29 de novembro de 2009
Todo amor que houver nessa vida, ser pão,comida - Cazuza

Eu quero a sorte de um amor tranqüilo
Com sabor de fruta mordida
Nós na batida, no embalo da rede
Matando a sede na saliva
Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum trocado pra dar garantia
E ser artista no nosso convívio
Pelo inferno e céu de todo dia
Pra poesia que a gente não vive
Transformar o tédio em melodia
.
Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum veneno antimonotonia
E se eu achar a tua fonte escondida
Te alcanço em cheio, o mel e a ferida
E o corpo inteiro como um furacão
Boca, nuca, mão e a tua mente não
Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum remédio que me dê alegria
Este é para fechar o domingo, agitado, cansativo e corrido
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
De tão grosteco e gostoso de ler,ganhou a sexta-Hilda Hilst
-tenho todo o tempo do mundo, querida (talvez tivesse, mas nem tanto!)
Tinha mania de uma música: You've changed, e era aquela xaropada até às duas da manhã mais ou menos, quando eu já havia mergulhado meus dedos várias vezes na sua suculenta xereca. Abria discreta e elegante as pernas nas boates, embaixo da mesa, enquanto engolia com avidez aqueles vinhos caríssimos. Sorrindo soltava um pífio arroto de tordos e ostras abafado entre os seus dois dedinhos, enquanto os meus (dedos naturalmente) beliscavam-lhe a cona. Muitas beliscadinhas, muito dedilhado até que ela gozava escondendo o gozo e simulando um segredo e enchendo de bafo, gemidos e saliva a concha do meu ouvido. Eu dizia com a caceta dura e espremida entre as calças:
-vamos embora, hen bem?
-tá tão gostoso, amor (...)
E aí eu tinha que começar tudo de novo, não sem primeiro ouvi-la pedir as sobremesas e os licores.Os olhinhos cor de alcaçuz, úmidos, tremelicavam. A boca repetia lentamente (em inglês, lógico) esses últimos dois versos do tal gênio: "tattoo marks around the anus, and a circle of lady golfers about him".
Pensei: é agora que ela vai se levantar e esparramar os livros do nojento aqui na cama. E adeus mesmo, vou inventar uma súbita náusea e me mando. Surprise! Ah, como a vida me encheu de surpresas!(...)Aí pensei: essa maldita louca vai começar a choramingar mais alto e o prédio inteiro vai ouvir. Enchi-me de coragem e estraçalhei-lhe o rabo com inglesas ou americanas (who knows?) e babados e o chapéu, não naturalmente sem antes lhe tapar a boca, porque tinha certeza que ela ia zurrar como um asno. Zurrou abafada, mas eu podia discernir algumas palavras. Ela zurrava: ó (leia-se aou, aou, aou, entonação inglesa) Aou Ezra, aou my beloved Ezra! Nunca entendi.Também nunca perguntei. Certamente o nojento era o Shakespeare dela.(...)
Hilda Hilst - fragmentos Contos D'Escárnio/Textos Grotescos.
Adoro quando chega a sexta. sempre tenho o prazer de ler coisas deste tipo,e entendo como um delicioso momento,mais relaxada,sem a loucura da semana. Agora à noite, às 02h:38 tentando rascunhar algo para o blog dos 30, até agora nenhuma ideia, texto diferente para postar, quase sinto desespero por isto.E lembrando que daqui a pouco acordo cedo e a correria começa.Tudo por conta de trabalhos,trabalhos e seminários da faculdade, sabendo que só vou respirar preguiça no domingo à noite.E vambora, nada é fácil...a difícil/boa arte de (sobre)viver com sorriso no rosto, enfrentado o dia-a-dia de...sedes, fomes, bichos, pensamentos mil...
domingo, 22 de novembro de 2009
Vem ouvir esse segredo Escondido num choro - Tom Jobim
Se eu pudesse por um dia Esse amor, essa alegria Eu te juro, te daria Se pudesse esse amor todo dia Chega perto, vem sem medo Chega mais meu coração Vem ouvir esse segredo Escondido num choro canção Se soubesses como eu gosto Do teu cheiro, teu jeito de flor Não negavas um beijinho A quem anda perdido de amor Chora flauta, chora pinho Choro eu o teu cantor Chora manso, bem baixinho Nesse choro falando de amor Quando passas, tão bonita Nessa rua banhada de sol Minha alma segue aflita E eu me esqueço até do futebol Vem depressa, vem sem medo Foi pra ti meu coração Que eu guardei esse segredo Escondido num choro canção Lá no fundo do meu coração...
[Tom Jobim, eu mereço Tom neste domingo tímido e sem sol,contar segredo escondido...e existe segredo que não seja escondido? ah,só Tom Jobim p/ fazer isto! Canção linda d+]
Saudades do meu Caro Leitor predileto,Machado de Assis!
UM GRANDE futuro! Enquanto esta palavra me batia no ouvido, devolvia eu os olhos, ao longe, no horizonte misterioso e vago. Uma idéia expelia outra, a ambição desmontava Marcela. Grande futuro? Talvez naturalista, literato, arqueólogo, banqueiro, político, ou até bispo, -- bispo que fosse,--uma vez que fosse um cargo, uma preeminência, uma grande reputação, uma posição superior. A ambição, dado que fosse águia, quebrou nessa ocasião o ovo, e desvendou a pupila fulva e penetrante. Adeus, amores! adeus, Marcela! dias de delírio, jóias sem preço, vida sem regímen, adeus! Cá me vou às fadigas e à glória; deixo-vos com as calcinhas da primeira idade.E foi assim que desembarquei em Lisboa e segui para Coimbra. A Universidade esperava-me com as suas matérias árduas; estudei-as muito mediocremente, e nem por isso perdi o grau de bacharel; deram-mo com a solenidade do estilo, após os anos da lei; uma bela festa que me encheu de orgulho e de saudades, -- principalmente de saudades. Tinha eu conquistado em Coimbra uma grande nomeada de folião; era um acadêmico estróina, superficial, tumultuário e petulante, dado às aventuras, fazendo romantismo prático e liberalismo teórico, vivendo na pura fé dos olhos pretos e das constituições escritas. No dia em que a Universidade me atestou, em pergaminho, uma ciência que eu estava longe de trazer arraigada no cérebro, confesso que me achei de algum modo logrado, ainda que orgulhoso. Explico-me: o diploma era uma carta de alforria; se me dava a liberdade dava-me a responsabilidade. Guardei-o, deixei as margens do Mondego, e vim por ali fora assaz desconsolado, mas sentindo já uns ímpetos, uma curiosidade, um desejo de acotovelar os outros? de influir, de gozar, de viver, de prolongar a Universidade pela vida adiante . . .
Machado de Assis -Capítulo XX /Bacharelo Me -fragmentos Memórias Póstumas de Brás Cubas
sábado, 21 de novembro de 2009
Eu não escrevo em português. Escrevo eu mesmo.
As vezes ouço passar o vento;
e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido.
Você pode ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes,mas não se esqueça de que sua vida é a maior empresa do mundo. E você pode evitar que ela vá a falência. E, quando você errar o caminho, recomece.
Pois assim você descobrirá que ser feliz não é ter uma vida perfeita. Mas usar as lágrimas para irrigar a tolerância. Usar as perdas para refinar a paciência. Usar as falhas para lapidar o prazer. Usar os obstáculos para abrir as janelas da inteligência.
Jamais desista de si mesmo.
Jamais desista das pessoas que você ama.
Jamais desista de ser feliz, pois a vida é um espetáculo imperdível, ainda que se apresentem dezenas de fatores a demonstrarem o contrário.
Fernando Pessoa
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
É mais que consciência, é respeito, é sangue é ser negro
Meu avô paterno é negro. Meu pai é negro. Meu irmão é negro. Portanto, é correto afirmar que corre sangue negro nestas veias, aqui pulsa forte e "dominante" sangue-negro.Essa foto é o retrato de como tem q ser, de atitute, personalidade e beleza negra. Não lembro de ter mencionado aqui, o quanto já sonhei/almejei nascer da cor do meu irmão, creio que nenhuma.Mas a verdade seja dita, sempre invejei aquela cor maravilhosa, cor jambo no pé, bronze de matar qualquer um de inveja. Quando vai à praia parece iluminado, é colocar uma camiseta branca e pronto! Ele fica bonito demais. Quando criança não pensava assim, tinha dúvida. Aquelas coisinhas de crianças, sabe como é, provocar irmão mais novo é a meta do mais velho. Um dia estava brincando com ele no quintal, e minha mãe estava próximo, e sem perceber, ela ouvia atenta as brincadeiras e briguinhas, em silêncio. Até que, não lembro o motivo ele me irritou e para irritá-lo lancei uma dúvida que permeava a muito tempo. Faz muito tempo e por isto não vou lembrar dos detalhes, mas lembro de algo assim "para de irritar Jú" e ele continuava, "para com isso moleque" e ele continuava, até que gritei "para menino chato, vc nem é meu irmão, olha a sua cor, vc é preto e eu sou branca" Ele fez uma cara de sentido, de magoado, e logo abriu o bocão e começou a chorar. Minha mãe assistia a tudo, sem que percebêssemos, quando dei por mim ela já estava perto de nós. Abaixou, colocou meu irmão próximo dos joelhos, começou a enxugar às lágrimas dele e disse:-meu filho não chore, sua irmã não sabe o que está dizendo!
-não mãe (chorando de soluçar), ela disse que não sou irmão dela, então vc não é minha mãe?
- não Jú deixa a mãe explicar.
-não mãe, eu sei que sou diferente, olha só a minha cor, eu sou preto e vc e ela são branca, até o pai é mais claro que eu...
Isto pq ele só brincava na rua, então tomava muito sol, o que realçava ainda mais a sua bela cor.
- me dê o seu pé! tire o chinelo e me dê cá e ligeiro seu pé.
Ele sem entender tirou...
- vê o sola do seu pé?
ele balançou a cabeça, se acalmando, parando com o choro.
- a sola do seu pé é da cor do meu, do cor do dela. Viu só? Tem diferença?
novamente, balançou a cabeça e dizendo que não!
-então diga pra ela, que a cor dela (e a minha) está embaixo dos seus pés.
Sorrindo largamente, aquele maroto sorriso que só ele tem, virou pra mim com os olhos brilhantes e disse:
- a sua cor está embaixo dos meus pés...hahaha
e começou a rir e a caçoar, como quem diz, "tá vendo boba!!!", logo depois minha mãe deu mil e uma justificativa sobre isto, dizendo que sim, era filho dela sim, e era meu irmão, embora não fossemos da mesma cor.
Nesta hora, já estava me sentindo muito mal, mesmo pq era mais velha, aliás sou mais velha 5 anos. Mas me senti envergonhada pq minha mãe nem sequer olhava, e isto já era mais que um tabefe, mais que uma surra, palmada ou bronca. Na hora creio que minha mãe ficou tão chateada de ouvir àquilo e tão sentida de vê-lo chorar daquele jeito que não teve reação e não quis dirigir a mim palavra alguma, a causa de todo chororo. Nunca esqueci este dia. E o tempo passou e meu irmão cresceu, chegando a idade à flor da pele e me vi na maior contradição de toda minha vida. Aquele preconceito que havia e impregnava, engessava minha mente desde pequena, aliado ao senso comum, havia dissipado. Algo iria mudar. Um dia conto algumas loucuras que fiz e passei, por essa vontade de ser negra, e o desdém que meu irmão faz, me chamando de branquela azeda, pálida, leite ninho, gasparzinho, etc. (rindo)
Não sei. Caso não esteja enganada, foi isto que me fez admirar e respeitar (acima de tudo), os negros. De tanto que rolava um preconceito comigo, em relação a cor, quando bem pequena. Ou o caro leitor nunca desconfiara da branquela aqui dizer que era viciada em praia ou que não pode ver um solzinho que corre para corar. Sim, pq bronzear é muito, sou branca demais, é no máximo corar. A única vez que fiquei ou cheguei perto da cor do meu irmão, foi na viagem à Fortaleza. De tão nega, meu irmão não me reconheceu quando foi me resgatar de mala e cuia. E não adianta. Deus não dá asa a cobra viu! Pq se fosse negra eu seria o ser humano mais insuportavel do planeta. Ninguém iria me aguentar (risos). Pq acho deslumbrante ser negro, acho show, mesmo com todas as dificuldades que sabemos bem, ainda hoje existe. Coisa mais linda ver Tais Araujo e Lazaro Ramos, ela negra fantástica com aquela juba imensa, a pele, a cor, e tudo autêntico; ele na cor, no jeito, na simpatia, no bom humor típico negro.E os cantores? Ah meu Deus! Milton Nascimento, Djavan, a velha guarda da escola de samba do Rio a majestosa Estação Primeira de Mangueira, com aquela velha guarda negra maravilhosa que cantava lindamente com Elis Regina. Rá meu bem! Além de Paula Lima, e tantos, tantos e tantos outros. E aqueles que sabem dançar, que dominam os esportes, sendo a maioria. Nossa e tanta e tanta e tanta coisa. E não respeitar o negro é não se respeitar. E vou mais além, é não se gostar, pq quer vc queira ou não, sinto meu bem! Seu sangue não é puro, nas artérias, nas veias, sendo bombeado p o coração, ah sim, corre sangue negro aí! Ainda que você não tenha a cor. Ou o caro leitor se esquece dos navios negreiros? Essa foto é da miguxa que estuda comigo, não na mesma classe mais mesma faculdade que conheci a pouco tempo e gosto e respeito. Esta é a Luana, uma negra de atitude que fez/faz diferença em todo lugar que pise os seus pés. Como diz minha mãe, diferença nenhuma, nem no solado do pé.
E hoje vai como homenagem, neste dia que para mim foi cansativo demais, começando às 08:30 e terminando às 18:30, colocando ordem em coisas que já estavam (muito) atrasadas. Mesmo um tanto "distraída" pensamento longe, consegui fazer tudo que havia colocado em pauta. E de tão distraída e longe alguém perguntou: -E pq está tão distraída? Tão longe, quase em outro mundo! sorrindo respondi, ou melhor perguntei. -Já quis ou desejou (muito) que algo acontecesse? Ou melhor, já ficou à espera mesmo sem esperança de que fosse acontecer e de repente sentisse que existe uma pontinha de luz para acontecer?A pessoa ficou me olhando sem entender, mas respondendo que sim, a tudo. Então e como ficaria?- ué sei lá, talvez assim como vc respondeu. -Então, acho que isso responde a pergunta, algo que ilumina o caminho e deixa crer (com alguma esperança) o que anseio a tempos acontecer... é isso!
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca.
.
Mas há a vida...que é para ser...intensamente vivida,há o amor.
Que tem que ser vivido...até a última gota.
Sem nenhum medo. Não mata.
(Clarice Lispector)
domingo, 15 de novembro de 2009
O tédio me alimenta e delicadamente me come-C.Lispector
A espirituosa elegância de minha casa vem de que tudo aqui está entre aspas. Por honestidade com uma verdadeira autoria, eu cito o mundo (...).
-“O tédio me alimenta e delicadamente me come, o doce tédio de uma lua-de-mel."
- Eu tivera que não dar valor humano à vida para poder entender a largueza, muito mais que humana, do Deus.
Estou desorganizada porque perdi o que não precisava? Nesta minha nova covardia - a covardia é o que de mais novo já me aconteceu, é a minha maior aventura, essa minha covardia é um campo tão amplo que só a grande coragem me leva a aceitá-la -, na minha nova covardia, que é como acordar de manhã na casa de um estrangeiro, não sei se terei coragem de simplesmente ir.
É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo. Se tiver coragem, eu me deixarei continuar perdida. Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo. Perder-se significa ir achando e nem saber o que fazer do que se for achando. Não sei o que fazer da aterradora liberdade que pode me destruir. Mas estou tão pouco preparada para entender. Mas como faço agora? Por que não tenho coragem de apenas achar um meio de entrada? Oh, sei que entrei, sim. Mas assustei-me porque não sei para onde dá essa entrada. E nunca antes eu me havia deixado levar, a menos que soubesse para o quê. O que eu era antes não me era bom. Mas era desse não bom que eu havia organizado o melhor: a esperança. De meu próprio mal havia criado um bem futuro. O medo agora é que meu novo modo não faça sentido? Mas por que não me deixo guiar pelo que for acontecendo? Terei que correr o sagrado risco do acaso.- – - – - – estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda. Não confio no que me aconteceu.
Clarice Lispector - fragmentos(A Paixão Segundo G.H., 1964)
sábado, 14 de novembro de 2009
Me contas do mar aberto das costas - Caio Fernando Abreu
E de novo me vens e me contas do mar aberto das costas de tua terra, do vento gelado soprando desde o pólo, nos invernos, sem nenhuma baía, nenhuma gaivota ou albatroz sobrevoando rasante o cinza das águas para mergulhar, como certa vez, em algum lugar, rápido iscando um peixe no bico agudo, mas essas outras águas que lembro eram claras verdes, havia sol e acho que também um reflexo de prata no bico da ave no momento justo do mergulho, nessas águas de que me falas quando me tomas assim e me levas para histórias ou caminhadas sem fim, não há verde nem é claro, o sol não transpõe as nuvens, e te imagino então parado sozinho entre a faixa interminável de areia, o vento que bate em teu rosto, as mãos com os dedos roxos de frio enfiadas até o fundo dos bolsos, o vento e novamente o vento que bate em teu rosto, esse mesmo que......os dias terminam porque sei que não nos procuraremos pelas noites, contudo me enveneno mais quando não vens e ninguém então me sabe parado feito velho num resto de sol de agosto, escurecido pela tua ausência, e me anoiteço ainda mais e me entrevo tanto quando estás presente e novamente me tomas e me arrancas de mim me desguiando por esses caminhos conhecidos onde atrás de cada palavra tento desesperado encontrar um sentido, que me permita esperar por um atalho onde não desvies tão súbito os olhos...
... penso sempre que o mar não é esse denso escuro que me contas, sem palmeiras nem ilhas nem baías nem gaivotas, mas um outro mais claro e verde, num lugar qualquer onde é sempre verão e as emoções limpas como as areias que pisamos, não sabes desse meu mar porque nada digo, e temo que seja outra vez aquela coisa piedosa, faminta, as pequenas-esperanças, mas quando desvio meu olho do teu, dentro de mim guardo sempre teu rosto e sei que por escolha impossível recuar para não ir até o fim e o fundo disso que nunca vivi antes e talvez tenha inventado apenas para me distrair nesses dias onde aparentemente nada acontece e tenha inventado quem sabe em ti um brinquedo semelhante ao meu para que não passem tão desertas as manhãs e as tardes buscando motivos para os sustos e as insônias e as inúteis esperas ardentes e loucas invenções noturnas, e lentamentes falas, e lentamente calo, e lentamente aceito, e lentamente quebro, e lentamente falho, e lentamente caio cada vez mais fundo e já não consigo voltar à tona porque a mão que me estendes ao invés de me emergir me afunda mais e mais enquanto dizes e contas e repetes essas histórias longas, essas histórias tristes, essas histórias loucas como esta que acabaria aqui, agora, assim, se outra vez não viesses e me cegasses e me afogasses nesse mar aberto que nós sabemos que não acaba assim nem agora nem aqui.
Caio Fernando Abreu - fragmentos "À beira do mar aberto"

