quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Quando a emoção supera a razão

Quando a emoção supera a razão
Só a psicologia pode explicar as reações nada lógicas dos investidores e as fortes oscilações das bolsas de valores nesta crise
Fernanda Pressinott - 12/10/2008 - 23h44 Divulgação
SÃO PAULO - Foi-se o tempo em que o investidor acreditava que o preço de uma ação podia ser calculado matematicamente ou em que buscava conhecer os fundamentos da empresa para decidir quanto pagar por um pedaço dela.

A coerência sumiu dos mercados ultimamente e o que vimos com a montanha-russa das bolsas de valores do mundo é que a crise levou por água abaixo toda a teoria econômica. Não adianta os macroeconomistas, o presidente da República ou o do Banco Central dizerem que o Brasil não será afetado, não adianta as empresas soltarem comunicados de fatos relevantes e balanços provando que estão bem financeiramente: o investidor – grande ou pequeno – está correndo da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). Mas o que está acontecendo? Por que eles, que são experts em contas, estão ignorando os cálculos?

A resposta não é encontrada em nenhum livro ou teoria econômica. A euforia e o sobe-e-desce das bolsas, no entanto, podem ser explicados pela psicologia. O agente que opera no mercado financeiro é humano e, em uma situação de medo, como a de perder muito dinheiro, ele corre, como fazia no Pleistoceno (de 1,6 milhão a 10 mil anos atrás), quando desenvolveu essa habilidade.

Manada
A explicação, a grosso modo, é que o cérebro humano tem uma região para cuidar da razão, formada por córtex e neocórtex, e outra para emoção, o sistema límbico. Nesse sistema, fica localizada a amígdala cortical, que é ativada em momentos de forte emoção, como medo e euforia. Ao ser ativada, essa amígdala "seqüestra" e concentra todos os esforços do cérebro humano, que não consegue pensar racionalmente e age por impulso.

No Pleistoceno, isso significava correr de um bicho; na bolsa de valores e na crise atual, o humano não corre, mas vende, vende tudo o que tem. "Ao sentir medo, todas as outras áreas do cérebro são momentaneamente anuladas para que se possa sobreviver. Isso foi fundamental no passado e, em certos momentos, esse mecanismo cerebral gera escolhas ótimas – é o caso, por exemplo, quando alguém precisa salvar uma criança do afogamento. Mas ele também é capaz de complicar a vida em sociedade moderna, impedindo cautela e ponderação na decisão de investimento", afirma a estudiosa em psicologia econômica Patrícia Fonseca.

Esse comportamento anda desestabilizando a Bovespa e, pior, provocando o efeito manada. "Sem saber o que fazer, o pequeno investidor fica refém de quem ele acredita ter informações privilegiadas e corre atrás dos gestores de grandes fundos. O ser humano considera melhor perder em conjunto do que arriscar sozinho. Isso dá um alento, a pessoa não se sente uma azarona", diz Patrícia.

Atrás do prêmio
Um dos mais importantes economistas do século passado, John Maynard Keynes, já dizia isso em 1936, para ilustrar sua descrença na bolsa de valores. Ele dizia: "Imagine um concurso de beleza pelo jornal, que mostre as fotos de algumas mulheres bonitas. Os leitores que escreverem ao jornal votando em uma delas concorrem a um prêmio. Mas apenas os que votaram na campeã ganharão o prêmio. Assumindo que os leitores votem majoritariamente pelo interesse no prêmio, eles não votarão com sinceridade na mulher que achem mais bonita. Tentarão votar na mulher que provavelmente os outros também escolherão. Desnecessário dizer que isso vai distorcer terrivelmente a votação".

Distorções
Paralelamente à tendência humana de ir junto com a manada, os gestores de fundos de investimento têm metas de curto prazo e querem resultados rápidos, portanto, distorcem o mercado. "Quem investe na bolsa sabe que em 18, 20 meses, tudo voltará ao normal e que, com o tempo, as perdas serão anuladas. Mas como dizer ao cunhado que perdeu R$ 300 mil em um dia? E se você é gestor, como dizer aos cotistas que não pode fazer nada nesse momento?", questiona o professor de finanças comportamentais da Pontíficia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e de mercado de capitais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Bernardo Fonseca Nunes.

Sem lógica
Os últimos dias são a prova dessa teoria. Empresas sólidas sofreram com a despencada de suas ações, sem nenhum critério teórico matemático. O mercado como um todo também. Um dia aguardava-se a aprovação do pacote de ajuda do governo dos EUA para os bancos, no seguinte, ao ter o pacote aprovado, as bolsas despencaram com os agentes dizendo que a ajuda era insuficiente. Mas eles já não sabiam o conteúdo do pacote? "É, de novo, a psicologia dominando a mente do investidor", diz Nunes. O problema é que não há remédio para não agir dessa forma. É possível cercar-se de alguns cuidados, apenas isso. "Alguns poucos parecem não ter emoções, como Warren Buffet (megainvestidor e homem mais rico dos EUA). A chave para ganhar dinheiro é não deixar as emoções atrapalharem. Ter um plano e não sair dele", afirma a psicóloga Patrícia.Como se fosse fácil...
Nota fragmentada*
Matéria mais que interessante e inteligente para explicar a tão conturbada crise no mercado financeiro. A tese aplicada para explicar a situação atual, embora os números se mostrem favoravéis a investimentos, a emoção tem desestabilizado os investidores causando pânico e total falta de confiança.Embora seja uma tarefa difícil não podemos deixar a emoção tomar conta de nossas decisões . Uma injeção de confiança e relatórios otimistas com o plano do governo americano para estabilizar a economia, talvez um escape para os invetidores agirem pela razão deixando de lado qualquer insegurança gerada pela emoção. Á fim de que o mercado esteja estabilizado e confiante gerando novos investimentos e aquecendo nossa economia.

Nenhum comentário: