domingo, 21 de dezembro de 2008

REGRESSAR ...O MASP

Era meu último ano...estava chegando a conclusão do ensino médio, pode ser que esteja enganada mas o nome ainda não era esse, pois ainda preparavam-se para a fase experimental do Enem. Chegara ao fim do ano de 1998, uma fase complexa, cheia de conflitos, amizades sem fim, hormônios a flor da pele, fámilia em fragmento, grandes dificuldades financeiras e uma paixão arrebatadora ou seria amor incontrolável, inatingível e indescritível apenas de um lado...não sei ainda hoje tento descobrir o que foi. É difícil descrever, afinal faz 10 longos anos, e voltar no tempo nem sempre é tarefa fácil e desejada, porém se faz necessária.

Assim como àquela bela cidade e escola em São Sebastião da Grama marcou-me com o início dos estudos, assim algo marcou o término. Já estava morando em São Bernardo do Campo, as dificuldades não eram tão diferentes do passado, com a diferença de que meu pai já não podia nos ferir, fosse em palavras ou agressões. Iniciei na escola um pouco antes do meio do ano, e novamente um friozinho na barriga e mãos suando, embora acontecesse tantas vezes não conseguia me acostumar a tantas mudanças, sempre de cidade, escola, amigos...Não havia um porto seguro e era forçada a sempre me adaptar. Nesta fase já estava trabalhando, começou cedo, pois as dificuldades não esperavam, as contas e cobranças de um pai que não tivera infância e amor do pai, e portanto não sabia o valor de uma boa educação, deixando livre o tempo para estudar. Não havia problemas, pois ainda gostava de ir a escola, era um dos lugares onde mais me sentira feliz, onde esquecia de tudo, de qualquer dificuldade, ali me sentia livre. Lembro-me como se fosse hoje, estava me sentindo em fragmentos, por tantos motivos que não sabia diferenciar, amava alguém que tinha problemas por todos os lados, acho que nos completávamos nesta parte, embora ele fosse mais velho e tivesse ocorrido maiores dificuldades. O nome dele? Não gosto de falar... Essa história é cheia de cicatrizes, se mexendo muito, corre o risco de sair sangue, e abrir se tornando uma nova ferida, com o tempo ela evolui se transforma. Então vamos deixa-la como está, pois Deus já fez grandes suturas e tem cuidado dela dia-a-dia, meses a meses, anos a anos, Ele é especialista em curar feridas na alma, feridas do coração, deixando-nos apenas com as cicatrizes, para talvez lembrar-nos do que foi bom ou ruim a existência.


Novamente uma professora marcava está fase final digamos assim, era uma mulher de pele clara, magra, alta, cabelos nos ombros em tom de loiro claro, semblante duro e de poucos amigos. Achava elegante pois sempre cheirosa e bem vestida, entrou altiva e petulante na sala e logo fui alertada de que era a bruxa da vez, pois quase ninguém se dava bem em suas aulas.Era minha professora de literatura e português. Logo de início gostei dela, e não poderia falar porque seria alvo de duras críticas entre os novos colegas, então fiquei quieta e sorri, disfarçando e concordando com o que diziam. Suas aulas eram maravilhosas, não perdia nenhuma, pois além de ser na sexta-feira era dinâmica e sempre valia alguma nota. Sim ela não era fácil, exigente que só, uma pena não te-la como minha professora desde o começo. Mas enfim ainda me restara alguns meses para aproveita-la. Alguns não entendiam e ficavam me olhando prestar atenção a tudo quanto ela dizia, e se perguntando porque não os acompanhava quando me chamavam para cabular as aulas dela (nossa cabular muitos anos que não falo isso rs), não gostava já que estava ali, não fazia sentido desprezar todo àquele conhecimento.


Até que novamente um fato marcou essa rotina, ainda boa demais para agora uma adolescente um tanto problemática, tímida, triste e fragmentada. Numa noite entrou na sala esbaforida, em seu semblante era nítido que não estava bem, embora sempre muito séria, petulante, altiva sempre demonstrava amor e prazer quando ensinava. Mas não àquela noite, estava diferente e não consegui entender, mas fiquei quieta e tentei prestar atenção. Apenas tive o azar de sentar próximos a pessoas que não estavam afim de nada e nunca assistiam suas aulas. Justo naquele dia resolveram ficar em sala de aula e talvez para provoca-la, não demorou muito e começou um bate boca, o que achava rídiculo, nunca faltei com respeito a nenhum de meus professores, mas nenhum mesmo, embora alguns fossem tão chatos e arrogantes. Sempre achei que alguém que se dispunha a dedicar seu tempo e sua vida à ensinar é digno de ser honrado. Mas algo iria acontecer e justo comigo, no calor da discussão entre um grito e outro ela fez a todos mudarem de lugar e numa dessas eu estava no meio, não porque estivesse fazendo ou falando algo, por que ela sempre notara que era uma de sua alunas mais frequentes, mas com um nervoso que não entendi de onde veio, achei o cúmulo ela brigar comigo também, descontar o nervoso dela em mim e me fazer mudar de lugar como se eu fosse culpada. Minha reação não foi das melhores, no lugar onde sentara meu gesto falou mais que mil palavras, fiquei com cara de bicho e joguei tudo de tinha nas mãos no lugar, aquilo foi a gota dágua, ela sentia na pele meu desprezo e sabia que também havia errado em me chamar atenção daquela forma, pois raramente conversava.


Quando olhei para ela disse: - Satisfeita agora? O motivo do bate boca já trocou de lugar...acho que agora pode continuar sua aula. Naquele momento não me sentia bem, meu rosto queimava e me sentia muito mal, acho que ela também não, não gosto de ser injusta e brigar com alguém que gostava tanto das aulas me matou. Logo a Ana a mais quieta, a que mais frequentava as aulas que raramente fazia bagunça, ou cabulava às aulas, o silêncio de todos queria dizer alguma coisa, mas nada, ninguém abriu a boca aquele dia, ela com uma dificuldade tremenda voltou a dizer que isso ou aquilo e nos alertou sobre conclusão do ensino médio seria diferente, pois sua notas valeria mais do que qualquer outra matéria. Não haveria provas e trabalhos, mas sim um passeio em grupo, descrevendo tudo em papel próprio punho e como garantia o ingresso. Seria para ver o obra Abapuru de Tarsila do Amaral no Masp.


Todos acharam péssima a idéia, pois teríamos que ir aos domingos e alguns para não dizer todos trabalhavam, tendo como único dia de folga, um passeio ao museu, imaginem só o tédio que sentiram só de imaginar, já para mim uma curiosidade sem fim, pois nunca havia ido ao museu, piada não é, mas não conhecia a nenhum, tão pouco o famoso Masp. Sem surpresa nenhuma, mesmo sendo em grupo, apenas eu fui ao museu, sozinha num domingo lindo e ensolarado, ótimo para um passeio. No caminho reflectindo sobre tudo o que acontecera nos últimos anos e como estava sendo difícil aquela fase. Não demorou muito cheguei e me deparei com a feirinha, havia muitos objectos interessantes, porém o melhor ainda estava por vir. Logo que entrei fiquei surpresa com tudo, o ambiente, os quadros, começando pelo subsolo e seguindo os demais andares, nossa fiquei encantada com tudo no último andar havia uma exposição de fotos preto e branco, não lembro-me nomes de artistas, pois sou péssima para guardar nomes. Observei tudo nos minímos detalhes me perdi, várias vezes olhando e olhando, e foi tudo encantador. Para você que talvez tenha acesso livre e acha besta, meus parabéns querido leitor que não tem nada melhor a fazer do que ler às besteiras (que você julgara) insignificante. Contudo meu prazer foi de contínuo, me senti livre de uma forma especial, pela primeira vez me permiti não pensar nas graves condições que me encontrara e nas decepções que sofrera. Enfim indo embora um tanto feliz, o resultado da apresentação da minha (um pouco) querida professora fora das melhores, pois apenas uns gatos pingados havia se prestado o favor de ir ao museu e discorrer um trabalho sobre tudo que vira. Sim meu grupo obteve a nota maior, embora ela soubesse que apenas partia de mim a atitude de ir ao museu e descrever o prazer que foi aquele dia. Não foi por menos para compensar o desastre daquela aula, onde com certeza a deixei muito chateada, fiz uma singela homenagem, agradecendo pela rica oportunidade de me "forçar" a ver que o belo não era tão distante assim, que nenhuma dificuldade poderia me impedir de ir além, de superar meus limites impostos por tantas dificuldades e falta de recursos. Foi uma forma de pedir perdão (e pedi mesmo, não estava no direito de falar daquele jeito com ela), de amenizar minha imagem para alguém que me fez um bem enorme. O objectivo dela, claro era de nos fazer olhar além das dificuldades, olhar para frente e perceber que embora não tenhamos recursos e uma educação das melhores, livros, arte e cultura não tem classe social, não tem idade, não tem preço desde que tenha disposição para aprecia-la.


O motivo de tudo, claro explico, nenhum problema quanto a isso, (já que perdera tanto tempo lendo não é?), é relatar que 10 anos se passaram desde que havia ido ao masp, fiquei neste ínterim adormecida em meus medos, sofrimentos e desilusões. Esqueci do que me fazia tão feliz e amenizava meus dias mais sombrios, os livros, a arte, o belo, o singelo, o silêncio, os museus e seu silêncio, às pessoas desde as mais estranhas, enfim a vida. Era apenas um corpo vagando e esquecendo do que é bom, até que Deus em sua infinita misericordia me fez entender que sempre haverá um não, mas para cada não há também um sim de bênção. Houve novas oportunidades e Deus me fez lembrar em como era feliz quando adquiria conhecimento, em como ficava em total delírio quando aprendia algo. O não machuca mas apenas por algum tempo, até perceber que foi melhor assim, que Deus foi justo e que nada acontecei por acaso. O regresso foi o suficiente para entender que estou recomeçando do lugar onde parei... A história segue...o fim? Não sei...Para onde? Não sei...A única certeza... é de que agora não vou mais parar.

2 comentários:

Anônimo disse...
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BRUNO disse...

Ana querida

Que bom que resolveu voltar, já não era sem tempo. Agora sim tenho como gastar alguns minutos e perder tempo (com prazer) em ler os post.

Fico feliz, refletiu bem nossa conversa de outro dia.
ótimo retorno minha querida amiga

Bruno