sábado, 20 de dezembro de 2008

REGRESSAR...

Não era muito diferente do que sou hoje, sempre cautelosa, distraída e desligada às vezes, porém com muita atenção para algo que raramente (ainda hoje) interessa a maioria, escola, estudar, livros e literatura. O que para muitos é uma tortura, uma chatice só, para mim é paz, é relaxar, é alegria, é contentamento descontente, pois sempre quero mais. Começou cedo, não lembro-me ao certo com que idade, mas havia um interesse a mais da minha parte em tudo que se tratava de humanas, fosse história, geografia, filosofia e claro literatura, um desejo especial. Mas sempre disfarçando, devido a ignorância de uma educação precária e grandes traumas e complexos, vinda de uma família um tanto desastrosa. Meu pai era (ainda é) um homem difícil de lidar, conversar e conviver, a ignorância era apontada de todas as formas. Mas dentre tantas lembranças, uma em especial não esqueço, não poderia regressar, sem mencionar o maravilhoso e lindo momento de uma infância que não teve regalias, brinquedos caros, passeios em parques, viagens em família, dialogo com pais ou quaisquer coisa dos atuais dias.


Há uma fato que não esqueço, nossa família era quase nômade, pois raramente fixávamos residência, sempre mudando de três ou quatro anos. Foram muitas cidades, uma em especial ficou marcada, a bela cidade de São Sebastião da Grama. Era uma cidade pequena, no interior de São Paulo, ainda posso sentir o cheiro de eucalipto e um ventinho no rosto quando penso nela. Havia uma bela praça, com uma imensa igreja católica no meio, ao redor da praça vários banquinhos, belas árvores, muitas flores e tudo muito bem organizado, havia uns arquinhos ao redor das flores, acredito que para ninguém mexer ou apenas enfeitar a bela praça. Era comum o trânsito de charretes e lindos cavalos de raça, os valiosos manga larga. Sim na fazenda onde meu pai era caseiro havia muitos, tinha muitos bichos, muito espaço, muito verde, fartura para todos os lados, um pomar enorme e cheio de frutas de todos os tipos que possa imaginar, onde sempre encontrava eu e meu irmão pendurados nas Jaboticabeiras, tentando pegar a mais pretinha e doce jaboticaba.


Era uma linda cidade, e havia uma escola que não esqueço. Acordava muito cedo, pois para chegar à escola tínhamos que ir de ónibus, um daqueles velhos bem empoeirados, pois só havia estradas de barros, fazendo um trajecto para pegar os alunos da zona rural. Há fragmentos que simplesmente não esquecemos, sentei-me atrás pois era nova na cidade e àquele meu primeiro dia de aula. Estava com medo, minhas mãos estavam molhadas de suor, sentia um friozinho na barriga, e meu coração batia acelerado. Quando chegamos à cidade e vi a grande escola um sorriso me acalmou, o da minha professora esperando todos os alunos entrarem na sala, em especial eu, acho que estava estampado em meu rosto que estava com medo, se compadecendo, abaixou e disse: -Ola? Você é a nova aluna não? Não consegui responder apenas balancei a cabeça, e entendeu que estava muito nervosa. Para me acalmar me deu um abraço e disse: -Não se preocupe você vai gostar, minhas aulas são sempre coloridas e não precisa ter medo, me direccionando para meu lugar. Ali já me sentia calma e entre um suspiro e outro, um sorriso saia, querendo fazer amizades. Amava aquela escola, tudo era diferente, catávamos o hino nacional todos os dias, com a mão no peito, com aquele ventinho suave no rosto. Sim sempre era do lado de fora, pois a escola tinha um lindo jardim, grandes árvores e os muros não eram de concretos, assim todos viam os alunos enfileirados, com a mão no peito, de frente a linda bandeira do Brasil e é claro de frente também para a diretora, um verdadeiro sargento, pois sua expressão era de poucos amigos.


Às aulas dela sempre eram muito coloridas, nos fazia pintar os cadernos de todas às cores, o meu era muito colorido, letras grandes de desajustadas no caderno, mas com um colorido digno de elogios... era minha professora de português ou educação artística, acho que era isso, muito pequena para saber. Suas aulas eram muito divertidas, sempre com livros, e nos fazendo imaginar o que tentava descrever. Volta e meia sempre estávamos na biblioteca, com livros cheios de ilustrações e letras enormes, tentando ler, ou assistindo desenhos como A Cinderela, A Bela Adormecida entre tantos. Até que uma dia, um fato abalou minha rotina um tanto boa demais para alguém que brincava sozinha (pois o irmão muito pequeno e o pai não o deixava brincar com a irmã, pois ele podia virar mariquinha brincando com bonecas) não tinha muitos brinquedos e morava longe da cidade.

Era dia de prova e não queria decepcionar, sempre intensa quando se dispõe a fazer algo, não conseguia imaginar em tirar uma nota vermelha e ter essa decepção. Só havia esquecido de algo..o horário, concentrei e dediquei-me tanto a prova que perdi a hora, e quando sai o ônibus já havia partido e fiquei sozinha no pátio, meu primeiro pensamento foi em meu pai e na surra que iria levar pois não estaria no horário como de costume. Meu desespero foi grande, quando dei por mim, minha professora estava me abraçando e perguntando o que havia acontecendo. Tentei explicar que perdi o hora e que o ónibus já partira e que com certeza encontraria meu pai muito zangado. Com toda sutileza ela me acalmou e ficou comigo até o motorista retornar. Vendo que já escurecera e que nunca havia acontecido de chegar mais tarde ou mais cedo, comecei a pensar no desespero que minha mãe sentira e na bronca e surra que levaria do meu pai.


Quando o motorista me viu com os olhos vermelhos e inchados de chorar, logo tratou de ligar o ónibus pois percebeu meu desespero e seguiu as orientações da minha professora, explicando que na fazenda onde morava não havia telefone e com certeza todos estariam muito preocupados comigo. Meu silêncio era mortal e por mais que o motorista tentasse puxar uma conversa não consegui responder e só pensava em chegar em casa e ver minha mãe e correr do meu pai. Não demorou muito e começou a chover, e um pouco a frente vi meu pai, em um trator, com uma cara de bicho que se feriu nas andanças pela pastagem. Meu coração quase saltou pela boca e o motorista vendo minha agonia, parou e explicou o que aconteceu ao meu pai pois percebera pela expressão rústica, sabia que era um homem de poucas palavras, bravo e ignorante, tentou fazê-lo entender que havia perdido o horário porque estava concentrada na prova e que minha professora ficou o tempo todo comigo. Não adiantou muito...pois o silêncio dele era fatal, quando cheguei em casa levei um surra daquelas, apenas sendo consolada por minha mãe...Estava na segunda série ou hoje ensino fundamental como chamam, mas nem a surra ou várias, conseguiu apagar minhas lembranças desta linda fase, pois amava àquela escola, à professora, à cidade, onde rodeava a pracinha e a banca de jornal para ver os lançamentos dos gibis ou ir a biblioteca ler, ler e ler os vários livros coloridos com grandes letras e deixar meu caderno cada vez mais colorido. Naquele tempo a literatura já havia ocupado seu espaço em minha vida.

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