domingo, 4 de janeiro de 2009

CHAMANDO OS COMPLICADOS

Algumas pessoas que o ouviram se animaram com suas palavras e comentaram que sonhavam superar sua timidez, solidão, fobias. Outras almejavam fazer amigos, mudar de trabalho, porque com o dinheiro que ganhavam as contas não fechavam no final do mês. Outras ainda diziam que sonhavam em fazer um curso superior, mas não tinha recursos para isso.

Elas esperavam um milagre, mas o vendedor de sonhos, era um vendedor de idéias, um mercador de conhecimento. O conhecimento era melhor do que ouro e a prata, encantava mais que diamantes e pérolas. Por isso, não estimulava o êxito pelo êxito. Para ele, não havia trajetórias sem percalços, nem oceanos sem tormentas. Fitando as pessoas, falou com segurança:
- Se seus sonhos forem desejos e não projetos de vida, certamente vocês levarão para a sepultura seus conflitos. Sonhos sem projetos produzem pessoas frustradas, servas do sistema.

E não deu explicações sobre esses pensamentos, pois queria que as pessoas dançassem na pista das idéias. Fiquei reflexivo. Vivemos numa sociedade consumista, numa sociedade de desejos, e não de projetos existenciais. Ninguém planeja ter amigos, ninguém planeja ser tolerante, superar fobias, ter um grande amor.
- Se o acaso for nosso deus e os acidentes, nossos demônios, seremos infantis.

Espantei-me ao olhar ao meu redor e perceber que o sistema social havia feito um estrago irreparável em quase todos nós. Não poucas pessoas consumiam muito, mas eram autômatas, robotizadas, viviam sem propósitos, sem significado, sem metas, como especialistas em obedecer a ordens e não em pensar, o que fazia aumentar o índice de transtornos psíquicos.

Questionei-me também como educador: o que eu havia formado na universidade? Servos ou líderes? Autômatos ou pensadores? Mas antes de responder a essa perguntas me inquietei com minha própria sitação. Perguntei-me:ser crítico libertou-me da servidão? Concluí que não! Eu era servo do meu pessimismo e da minha pseudo-independência. Estava levando para o túmulo meus conflitos. Interronpendo meus pensamentos, o mestre comentou para sua platéia extasiada:
- Conquistas sem riscos são sonhos sem méritos. Ninguém é digno dos sonhos se não usar derrotas para cultivá-los.

Por estudar a história das riquezas das nações, entendi que o significado sociológico desse último pensamento. Entendi que muitos dos que recebiam herança ou eram presenteados gratuitamente com fortunas haviam tido conquistas sem méritos, não valorizavam as batalhas dos seus pais, dissipavam seus bens como se fossem eternos. A herança se tornava um laço para uma vida dissoluta e superficial. Eles eram imediatistas, queriam sorver o máximo prazer do presente, sem preve futuras tempestades.

Enquanto eu criticava as pessoas como vítimas do sistema e não como autoras da sua história, num ímpeto voltei-me para mim e percebi que não era diferentes delas. Não entendia porque pensamentos tão simples eram tão penetrantes. Estudei complexas idéias do socialismo, mas elas não penetravam nas áreas ocultas da minha psique. Sonhei em ser uma pessoa feliz, mas tornei-me um miserável. Sonhei em viver uma vida melhor que a que meu pai viveu, mas reproduzi o que mais detestava nele. Sonhei em ser mais sociável que minha mãe, mas cultivava sua sisudez e amargura.

Não usei minhas perdas para cultivar meus sonhos. Não fui dignos deles. Detestava riscos, queria controlar tudo ao meu redor, pois poderia comprometer minha brilhante reputação acadêmica. Tornei-me estéril por dentro, não engravidava de novas idéias. Esqueci que os grandes pensadores eram malucos que assumiam os riscos. Não poucos foram execrados, taxados de lunáticos, tidos como heréticos, transformados em espetáculo de vergonha social. Enfim, serviam de carne fresca para aves de rapina de plantão. Creio que eu era uma dessas aves predadoras.

Até nas teses de mestrado e doutorado os riscos eram quase eliminados, Alguns dos meus colegas lutavam contra esse formalismo, mas eu freava. Somente após seguir esse imprevisível vendedor de sonhos fui compreender que as grandes descobertas da ciência foram produzidas na juventude, no calor da rebeldia, e não na maturidade dos cientistas. Os formais recebem diplomas e aplausos, os desvariados produzem as idéias que eles utilizam. Capítulo Chamando os complicados, página 62,63 e 64.

O Vendedor de Sonhos - Augusto Cury

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