sábado, 7 de março de 2009

FRAGMENTO ESTRANHO...1º PARTE

Uma noite de encontros. Encontros com estranhos. Confesso tenho sorte neste aspecto, ou seria um dom? Não sei dizer o que é exatamente. Mas o fato é que as pessoas me contam coisas que jamais ousariam contar a alguém. Sim sou especialista nisso. Em ouvir. Posso ficar horas e horas a fio ouvindo histórias, creio que sentem segurança pra falar, porque deixo transparecer o quanto me agrada. Não por educação, mas por amor. Adoro ouvir histórias de amor (que mais gosto), histórias de vida, dificuldades, complexo, medo, receios, angústias, enfim tudo e sobre tudo. Posso dizer que tenho amigos que confiam muito e confidência assuntos diversos, desde o mais simples, difícil, escandaloso, complicado e mais estranhos. Conheço coisas de alguns que penso, em como é sério ou tão perigoso saber disto ou àquilo, são confissões que sabem (todos) jamais seriam reveladas em hipótese nenhuma, nem sob tortura. No entanto, confesso que existe uma dificuldade enorme em falar qualquer coisa sobre mim, dizer o que está acontecendo, sentindo, sei lá, coisas mil. Motivo de queixa de alguns, dizendo que falam, falam, deles, mas nunca ou quase nunca sabem algo de mim.

É difícil pra mim, falar qualquer coisa. Talvez medo. Pouquíssimas pessoas sabem o que aconteci comigo. Não que seja coisas graves, entenda, quando refiro-me assim, trato de assuntos de conflito, motivo de tristeza e angústias, assuntos do ser. Porque sou calada e reservada demais, tímida e muito, graças as loucuras do meu pai. Era uma figura muito estranha, pois não permitia que fizéssemos amizades, por isso nos escondia de todos e de tudo, sempre morando em lugares longe, isolados de difícil acesso. Morei muitos anos no interior, não foi de todo ruim, mas talvez tenha contribuido em ser tão tímida e reservada, revelando-se um bicho do mato. Então, mas não é sobre isso que desejo falar. Na sexta-feira à noite aconteceu por duas vezes encontros com estranhos. Pessoas que nunca me viram na vida, falaram por minutos algo deles, até então, creio que revelados apenas a amigos, já que se trata de coisas intímas. Saindo do trabalho estressada, com uma dor de cabeça daquelas, tentando não me lembrar como foi estressante aquele dia, chegando no ponto, lembrando que à noite seria leve e menos estressante, teria aulas da Olda, professora incrível, faz tempo que minha sexta-feira não era tão feliz, cheia de contentamento descontente, assunto para quando lembrar. Pensando, até que enfim meu dia iria terminar um pouco mais alegre, embora estivesse atrasadíssima, fiquei minutos e minutos andando de um lado e outro passos estreitos batendo o pé o todo instante. Até alguém me perguntar:
- Ah você sabe se aqui na rua da mooca o parque Dom Pedro demora a passar?
Confesso que meus pensamentos no momento não eram dos melhores, uma irritação me consumia, mas respirei fundo e olhei para trás. Pensando quem é essa infeliz que pertuba meus pensamentos? Não se assustem no dia-a-dia sou assim, cara de poucos, mais muito poucos amigos, a primeira impressão é de alguém insuportavél, irritante e tímida. Pois é. Mesmo assim respondi:
-Não, não demora. No máximo 20 minutos, não mais que isso. Ela responde sem graça.
- A tá obrigada. Vontei a olhar em direção do nada e tentar organizar meus pensamentos. Segundos depois...
- Nossa que calor não? Novamente por educação respondo.
- É insuportavél mesmo. Virando-me e deixando bem claro que não queria conversa. Ela se calou. Senti um remorço corroer meus pensamentos. E não dar atenção a ela tão disposta a conversar, me comoveu. Virando-me de vez enquando olhei e vi que sorria pra mim, quase dissipando meu estresse e mal humor de um dia cansativo. Baixei a guarda e puxei conversa. Era jovem, cabelos lisinhos e pretos na altura dos ombros, pele bronzeada, um cor linda que adoro, jambo, sorriso largo e bonito, magra e alta uma simpatia e percebi o que meu mal humor faria em disperdiçar a companhia. Percebeu que mudara meu comportamento e dava atenção ao que falava, olhando nos olhos. Conversamos muito até a chegada do ônibus, que foi mais de 55 minutos, mas não ligamos, tínhamos a companhia uma da outra para saciar os minutos de espera.

Nestes 55 minutos contou onde trabalhava e como era engraçada certas situações, fazia parte do setor de compras de um famoso hospital, não menciono, guardo os detalhes ok. Estava ali porque em plena sexta-feira à noite ir de carro do outro lado da cidade é loucura, preferiu ir de ônibus e andar de fura-fila, até então uma novidade. Deu uma gargalhada ao dizer. - Está aprovado, por mim teria fura-fila em todos os lugares da cidade de São Paulo. Contou que havia se formado e como fora os últimos anos do curso no final de 2008 e como havia conhecido o amor neste ínterim. Caso não a deixasse falar (seria um grande erro), não conseguiria botar pra fora algo que sufocava sua voz, seus pensamentos e seu coração. Seu nome é Júlia uma moça bonita com 25 anos e uma história encantadora, ou melhor fragmento encantador. A cada história fico impressionada com os homens, não estou jogando a culpa, não é isso, mas a incapacidade de cada um em amar uma única mulher. Não entendo. Ainda que me esforce, não compreendo. Salomão como mencionei várias vezes teve o maior harém de todos os tempos, se não me engano havia 1500 mulheres. Nem se vivesse 500 anos conheceria a todas. Sua frustração maior, o vazio maior, não era apenas da presença de Deus, mas em amar uma única mulher. Amar uma única mulher não é tarefa para alguns dias, anos, meses, é trabalho para uma vida inteira. O maior esforço está em reconquistar todos os dias esta única mulher, em fazer que sua rotina se torne algo tão prazeroso, que não queira mais te-lo por longe em nenhum dia. É entregar uma rosa na semana conturbada e cheia de problemas, é ligar de manhã embora tenha visto sair para o trabalho e perguntar: Como está sendo o dia. É tomar algumas atitudes que façam diferença, marcando com um simples gesto de vez enquando, é beija-la sempre, ainda que as rugas apareçam, expressando que a idade chegou e que a juventude dá a seu adeus, é abraça-la e aperta-la demosntrando proteção, é vez outra dizer Eu te amo, só para lembra-la; a maior prova de amor se dá todos os dias com gestos, carinhos, olhares intensos rasgando sua alma e o fazendo perder a noção de onde estão, falam mais que mil Eu te amo. Por isso fale apenas de vez enquando, para que não se torne banal. Os homens esquecem que amar uma única mulher é melhor do que ter mil. Salomão e mais da metade dos homens deste mundo não sabem o que é isso. Esqueceram, seduzidos pela aparência, pela fantasia de que beleza é amor. Grande engano. Grande erro. Grande ilusão. Quando me refiro a ter pela metade é que a maioria só interessada pela aparência, a embalagem importa mais do que o conteúdo. Que vazio não! Por isso algumas se perdem e desistem do amor como Júlia. Nisso o ônibus chegou entramos e demos risada no caminho até o metrô, despedimos abraçando uma a outra e trocamos telefones e e-mail. No fim percebi o grande erro que teria cometido se continuasse a ignorar alguém que clamava para ouvi-la. Minha falta de atenção subtrai meus limites e percebo o quanto sou desligada, distraída e tímida. O bicho do mato tem muito o que aprender. Bom ainda tem a segunda parte desta sexta-feira, agora ocorrido no retorno para casa, mas essa história conto amanhã, já é tarde, mas precisamente 01:11 e sinto algo raro me dominar....o sono.

Um comentário:

Bruno disse...

é verdade Ana.

Tem esse dom de nos fazer confessar absurdos que não ousariamos contar a mais ninguém.Tens uma sensibilidade rara, para ouvir, ouvir e ouvir, para só depois finalizar com palavras de fé e esperança. Sempre resaltando de que no fim tudo vale a pena,ainda que haja sofrimento. Sempre a achei forte, determinada,INTENSA, elétrica um pouco rude e intolerante às vezes (é verdade), mais apenas para se proteger de qualquer sofrer (ou mais).

Confio e assumo aqui, sou confeso sempre a ti, pq sei q jamais contaria nada a ninguém me jugando por minhas opções, se sou, se não sou, pra você não faz diferença, minhas escolhas não afeta, como diz, pode não concordar com minhas opções, mas respeita.

Isso você faz como ninguém respeita as diferenças e isso independe de qualquer coisa.

por isso somos grandes amigos

sou grato por tudo