quarta-feira, 11 de março de 2009

TRADUZIR-SE


Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo



Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.


Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.


Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.


Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.


Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.


Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?


Ferreira Gullar
.

2 comentários:

Bruno disse...

Identifico-me, quando fala de solidão.matando a solidão em noites quentes e calientes na beleza (iludido de que beleza é amor) e afogando-me em manhãs vazias e solitárias.

Tem toda razão!
Não vale a pena tantas com tantos.. um só é trabalho pra vida inteira.

Concerteza seria par ideal, se não fosse do sexo que é.mas contento-me com a doce, longa e sincera amizade.

Embora (vc ache tudo bobagem)o que escreve, para alguns há sentido e verdade, merecendo (e muito)atenção, para refletir, pensar, pensar e refletir.

bj

Bruno disse...

No fim esqueci de comentar a bela imagem.

Só falando do post de alguns dias.