domingo, 21 de junho de 2009

QUERO ESCREVER O BORRÃO VERMELHO DE SANGUE

Quero escrever o borrão vermelho de sangue
com as gotas e coágulos pingando
de dentro para dentro.
Quero escrever amarelo-ouro
com raios de translucidez.
Que não me entendam
pouco-se-me-dá.
Nada tenho a perder.

Jogo tudo na violência
que sempre me povoou,
o grito áspero e agudo e prolongado,
o grito que eu,
por falso respeito humano,
não dei.

Mas aqui vai o meu berro
me rasgando as profundas entranhas
de onde brota o estertor ambicionado.
Quero abarcar o mundo
com o terremoto causado pelo grito.
O clímax de minha vida será a morte.

Quero escrever noções
sem o uso abusivo da palavra.
Só me resta ficar nua:
nada tenho mais a perder.

CLARICE LISPECTOR

2 comentários:

Bruno L.S disse...

Este blog anda afogado em delírios. Delírios de uma mulher que é uma "velha sabia" no corpo de uma menina.Fico fascinado com o momento camaleão,ninguém tem este jeito de ser,es única.Respeitando cada estação de vida,sentimento e desejo. Um blog sensual é assim que está.
um beijo grande querida

Frederico Carvalho disse...

Neste século tão moderno e menos puritano,as mulheres são podadas,seus desejos e tesão sufocados pela vaidade/insana de homens. Suas palavras estalou meu olhar. Uma breve certeza de que existem mulheres surpreendentes,embora,com rosto de anjo e jeito de menina.Parabéns querida!