domingo, 16 de agosto de 2009

RESSURREIÇÃO - CAPÍTULO XIX - A PORTA DO CÉU

Lívia saboreava esse renascimento do amante. Estavam sós e iam dar o penúltimo beijo de despedida. O último seria o da noite seguinte. As mãos dela pousavam nos ombros de Félix, e os olhos de ambos procuravam fundir as duas almas no mesmo raio de luz.
O céu não dava razão aos receios de Viana; tinham-se dissipado as nuvens que anunciavam próxima borrasca. Não havia luar, mas a noite estava clara; e as vivíssimas estrelas que luziam no céu, algum poeta imaginoso as compararia a línguas de fogo daquele pentecostes de amor.

— Jura-me ainda uma vez que me amas! dizia ele. É doce à minha alma ouvir-te essa confissão!

— Pelo céu, por meu filho, por ti, juro que te amarei sempre! Amava-te ainda quando eras indiferente ao meu afeto, quando o negavas, quando me pagavas com o desdém. Por que não amaria agora que és todo meu... todo, não?

— Duvidas?

— Eu não sei duvidar; recear, sim. Já te disse por que razão. Mas hoje não receio, não; sinto que sou verdadeiramente amada. Quaisquer que fossem as minhas queixas, eu tudo te perdoaria agora, que me abres a porta do céu.

— Oh! tu és um anjo!

— Adeus!


— Adeus! Amas-me muito, não?

— Muito!


E um beijo casto, longo, quase divino, selou esta confissão tantas vezes repetida entre eles. Depois apertaram as mãos, e Félix saiu.

A rua estava deserta, o silêncio era profundo. Félix entrou em casa exaltado e alegre. Não tinha sono; recorreu aos livros, mas não lhe aproveitou o recurso, porque se os olhos corriam no papel, o espírito estava ausente, no tempo e no espaço; buscava a amada e planeava futuros.

Com a fadiga veio o sono. Félix adormeceu nos braços dos anjos.

Batiam oito horas quando ele acordou e abriu as janelas. O dia estava triste. Caía uma chuva fina e constante, que havia começado pouco antes dos primeiros albores da manhã. Que lhe importava a ele a melancolia da natureza, se tinha dentro d’alma uma fonte de inefáveis alegrias?

Assentou-se à escrivaninha, e durante duas horas fez o inventário da sua vida de solteiro, rasgando com indiferença uma imensidade de cartas que lhe lembravam afeições extintas ou simples relações passageiras. Varria o templo em que devia entrar a escolhida de seu coração. Quando relia algumas dessas epístolas, — folhas caídas da estação que se fora, — desenhava-se-lhe nos lábios um sorriso irônico, mas tranqüilo, tal era a transformação de sua alma já indiferente às lutas do passado

Fragmentos - RESSURREIÇÃO - MACHADO DE ASSIS

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