domingo, 30 de agosto de 2009

VENENOS DE DEUS, REMÉDIOS DO DIABO

-De onde tu és? - perguntou Deolinda.
-Sou da Guarda.

Ingènua malícia no olhar, ela sussurrou no ouvido de Sidónio Rosa.
- Tu és o meu anjo-da-guarda.

O riso dela ganhou espessura, inundando-lhe o corpo. Depois, o corpo já não lhe bastava e ela se encostou nele. O português viu as suas defesas desmoronarem. Os braços dele envolveram-na, a medo. Quando deram conta, estavam enleados, sem saber que parte pertencia a um e a outro. A Praça do Rossio, em Lisboa, ficou de repente, despovoada. Um homem e uma mulher trocavam beijos e o seu amor desalojava a cidade inteira.

- Tens medo de fazer amor comigo?

- Tenho - respondeu ele.

- Por eu ser preta?

- Tu não és preta.

- Aqui, sou.

- Não, não é por seres preta que eu tenho medo.

- Tens medo que eu esteja doente...

- Sei prevenir-me.

- É porquê, então?

- Tenho medo de não regressar. Não regressar de ti.

Deolinda franziu o sobrolho. Empurrou o português de encontro à parede, colando-se a ele. Sidónio não mais regressaria desse abraço.

- Que olhar é meu nos olhos teus?

Nessa noite se solveram, mãos de oleiro, salvando o outro de ter peso. Nessa noite o corpo de um foi lençol do outro. E ambos foram pássaros por que o tempo deles foi antes de haver terra. E quando ela gritou de prazer o mundo ficou cego: um moinho de braços se desfez ao vento. E mais nenhum destino havia.

- Amar - disse ele - é estar sempre chegando.

Um ano depois, sentado sobre um banco de pedra, o português sente ainda chegando a Vila Cacimba enquanto convoca as memórias do encontro com a mulata Deolinda. O que faltava, agora, para que ele se sentisse já chegado?

Lembrou os versos que ele próprio rabiscara na ausência de Deolinda:"Eu sou o viajante do deserto que, no regresso, diz: viajei apenas para procurar as minhas próprias pegadas. Sim, eu sou aquele que viaja apenas para se cobrir de saudade. Eis o deserto, e nele me sonho; eis o oásis, e nele não sei viver." Na poesia, haveria oásis e desertos. Mas, em Vila Cacimba, havia apenas uma praça onde um médico estrangeiro se banhava nas lembranças de sua amada. É no meio dessa praça que esse médico aspira o arfresco e sorri de satisfação: no seu país é Outono e, àquela hora, ele estaria submerso entre o frio cinzento.

Esses são os pensamentos de Sidónio Rosa enquanto se dirige a casa dos Sozinhos.

FRAGMENTOS - cap.doze - Venenos de Deus, remédios do Diabo - MIA COUTO

2 comentários:

Eduardo Araújo disse...

Minha tese foi sobre Mia Couto, não li Venenos de deus, remédios do diabo.

Adoro suas visitas


Beijos

Ana... disse...

...então leia, tenho certeza q irá gostar.

Eu gostei tanto q hoje adquiri outro livro...gostei do título e prefácio....O último voo do Flamingo - Mia Couto.

e...adoro visita-lo.

bj