domingo, 18 de outubro de 2009

Do tempo doce,da lembrança boa,da minha fase Gal Costa

Gosto dessa foto. É divinamente linda. Neste fim de semana peguei de jeito a Gal. Deixando de lado a velha mania de achar que as coisas têm que ser igual o tempo todo. Não. Nada tem que ser igual. O dia de ontem não é igual o dia de hoje. Hoje eu não sou a mesma. Meu corpo não é o mesmo. As células do meu corpo não são as mesmas. Algumas já morreram, algumas estão a envelhecer. Alguns fios de cabelos nasceram outros caíram. E assim é com tudo e todos. Nada é igual. Um dia não pode ser igual ou semelhante ao outro. Ontem estava de um jeito e hoje estou de outro. Esqueço-me sempre disto e às vezes faço algumas coisas do mesmo jeito e sempre igual. Tratando-as com os mesmos valores e sentidos. Não. Tenho que parar com isto. Aí o caro leitor me perguntar. Mas que do quê essa louca está falando? Pois é. Louca mesmo. Estou falando de vida, estou falando de momentos, de lembranças, de dias, de pensamentos, estou falando de tudo. E o que a Gal tem com isso? Tudo também. Sempre ouvia suas canções quando estava depressiva, o que na verdade me contradiz, por que esqueci de como aprendi a gostar dela.

Foi em Caraguatatuba, meio menina querendo ser grande. Morávamos num chalé (na verdade conjuntos, várias casinhas para alugar em temporadas) nos fundos da cidade, tanto que havia morros, local perfeito para soltar balões e asa-delta. E nos tempos de fim de temporada era muito vazio e todos os chalés ficavam vazios. Era oportunidades diversas de extrapolar as regras de meu pai. Tudo sendo acobertado por ela. Era cada uma. E lembro de um chalé que ficava nos fundos e dava com a parede da vizinha. Era uma mulher de cabelos curtos e magra. Fios pretos por cima dos olhos, estes que eram grandes e bem pretinhos pareciam jaboticabas. Era bonita e a casa dela era cheia de plantas, tinha passarinho por todo lado. Gostava de ficar no ultimo pq escutava as falas dela com o cachorro e os passarinhos. E ficava espiando por buraquinhos no muro, ficava olhando, olhando, sem ela perceber. Os buracos eram pequenos, mas de tanto cavucar eles cresceram. E sempre estava com o som ligado. Ouvindo Gal, Marisa Monte e Marina Lima. Hoje eu sei quem é quem, mas na época só sabia que Gal era a Gal as outras aprendi mais tarde quem era quem. Nunca me atentei para nomes de canções e cantores, minha memória é pessíma para nomes.então ouvia alguma de suas canções. Dentre elas, sim, isso mesmo Gal. Mas caso me pergunte se lembro qual ouvia, sou bem sincera em dizer que lembro bastante de chuva de prata, e também "bem se quis depois de tudo ainda ser feliz", Marisa Monte e Marina Lima aquela que diz "fez castelos e sonhou ser salva do dragão"...rs é que eu não lembro o nome.

Ficava horas lá. Às vezes perdia o horário de jantar. Por que sempre me fazia ser a Gal, cantando com frasco de perfume o fingindo ser um microfone e as luzes do poste ou do corredor eram as luzes do meu show e quem era a plateia. Ah, bem. Não tinha, mas fingia ter milhares de pessoas me ouvindo cantar. Até que um dia, demorei tanto, que meu pai foi atrás, estava cantando chuva de prata, tão concentrada que não ouvi os passos dele. Foi tão rápido, quando me dei conta ele já estava de frente pra mim, me olhando, para minha surpresa com uma cara de bem humorado. Deu uma risadinha de canto de boca e disse:

-o que você está fazendo aqui?
-nada pai, nada não.
-como nada, estava com olhos fechados quase engolindo meu desodorante...rs
baixando a cabeça e sentindo o rosto queimar respondi.
-tô brincando pai.
-mas brincando do quê? seu irmão está lá dentro e não vejo nenhum brinquedo aqui.
-ahhh, tô brincando de cantora, de ser a Gal.
meu pai, deu uma gargalhada alta, me pegou no colo e respondeu.
-e você conseguiu?
-o quê? ( muita vergonha, respondo)
- ser a Gal?
-não pai. (com mais vergonha ainda)
-então vamos embora, sua mãe está esperando pra jantar minha Gal, pode não ter a voz, mas o cabelo...hum, é igualzinho...rs

E saímos rindo um do outro, achando graça de tudo. É a lembrança doce e rara que tenho dele. Ou uma das, ainda tenho outras, quando lembro dou risada demais. Nesta a gente também ri.E por causa de Gal a gente sempre lembra disto. Quando falei com ele a um tempo atrás relembrou algumas situações boas que jurava não lembrar e esta foi uma, fiquei surpresa demais e feliz. Nossa relação sempre foi difícil, mas nunca um impecílio para arrancar dele raros momentos de alegria, como este. Era uma pessoa difícil de amar. De tão obrigando a rouba-lo, roubar momentos de alguma felicidade. É sou assim, se não dá eu roubo rs. Meu pai tira o barato até hoje. E eu também lembro com sorriso no rosto, e cresci ouvindo algumas de suas músicas. Nunca contei isso a ninguém (amigos). Talvez, contando aqui para não esquecer. E relembrar que tempo de ouvir Gal não é e não deve ser tempo triste/deprê. E o que aconteceu hoje? Nada. Eu só descobri que hoje não é igual ontem. E qual o motivo de ouvir tanto a Gal? Bom, nenhum especial. Então o que é? Nada não. É que eu estou brincando de ser a Gal (risos), do mesmo jeitinho, só que agora com um frasco de creme de cabelo....(risos, milhares de risos).

Crédito - Foto de Milton Montenegro para o disco "Bem-Bom" (1985) Site da cantora

Um comentário:

BRUNO L.S disse...

O quê? Quase engolindo o desodorante?kkkkkkk
Só você mesmo.