sábado, 3 de outubro de 2009

A NOITE DE ETIENNE LA BOÉTIE E CAETANO

A sala escura. Uma roda. Silêncio. Todos sentados. A surpresa que me fez feliz, a simplicidade da aula.. A bela actuação neste cenário que é a vida. Nesta que não me deixa esmorecer por mais difícil que possa parecer. Algum cansaço, fadiga na verdade. Me fazia esquecer que havia dito que nesta sexta que passou tão rápido, como quem come os minutos de vida. seria diferente. Chegando tão mole e sonolenta que estarreceu-me vê-la daquele jeito. Dizendo com voz mansa de que não sabia o que iria acontecer, que faria a abertura da aula, mas o resto seria com a gente. Começou com uma música, disse que ela evapora os pensamentos ruins.Pediu que relaxasse, respirasse fundo, e foi o que fiz. Fechei os olhos e solta na imensidão do som. Neste momento não havia um só barulho de voz. A não ser o voz de Caetano soando preguiçosamente em mim. Era som agradável aos ouvidos. Não foi rejeitado até o seu fim.


Logo, pediu que ficássemos como estávamos sentados e naquele clima. Surpreendendo com sua voz grave recitava com força cada palavra. De luz apenas a lanterna que sem entender nós levamos, achando um tanto estranho o pedido. numa sexta-feira aulas que não teria a necessidade do objeto. Ali revelado o segredo, o escuro era necessário e a lanterna para iluminar palavras que se apagavam no escuro.Falava algo sobre liberdade de homens, amor, sonhos, terra, a prisão, bicho aprisionado, devoradores de homens. Onde está Deus? Onde ele foi? Subia na cadeira perto da janela, recitava mais alto, mais, mais alto ...o que vcs querem? Liberdade? Aos homens que outrora aceitam a prisão como bichos governados? Àqueles que tomaram suas terras onde estão os tubinambás? Coração batia rápido demais, meu corpo estava quente, meus pensamentos congelados naquela imagem. O que ela estava fazendo? Qual o propósito disto? Não queria saber, me entreguei àquela cena como virgem se entrega ao primeiro amor, limpa, pura, inocente. Chegava perto de nós, colocava a lanterna no rosto, nos olhos e recitava. Depois de alguns instantes...parou. Entregando a lanterna no centro sentou-se e calou-se. Já não ouvíamos uma só palavra. Silêncio.

Alguns segundos enlouquecia. O silêncio pode ser loucura quando na presença de muitos. A primeira coragem e ela levantou-se, foi no centro e recitou. Voz potente. Outra vez outro também. E manso. E outro...e outro. E uma voz sem controle gritava dentro de mim. E você? Não vai? Levante-se ou se arraste e diga algo. Mãos suando, virei a página naquelas que gritavam por voz. Clamavam me grite! Diga que és natureza viva! E sem entender o que estava acontecendo o fiz. Feito bicho, natureza viva me arrastei e disse:

- Nossa natureza é de tal modo feita que os deveres comuns da amizade levam um boa parte do curso de nossa vida; é razoável amar a virtude, estimar os belos feitos, reconhecer o bem de onde o recebemos, e muitas vezes diminuir nosso bem-estar para aumentar a honra e a vantagem daquele que se ama e que o merece. Em consequência, se os habitantes de um país encontraram algum grande personagem que lhes tenha dado provas de grande previdência para protegê-los, grande audácia para defendê-los, grande cuidado para governá-los, se doravante cativam-se em obedecê-lo e se fiam tanto nisso a ponto de lhe dar algumas vantagens, não sei se seria sábio tirá-lo de onde fazia o bem (...) e não temer o mal de quem só se recebeu o bem.

-É estranho ouvir falar da bravura que a liberdade põe no coração daqueles que a defendem; mas o que, em todos os países, em todos os homens, todos os dia, faz com que um homem trate cem mil como cachorros e os prive de sua liberdade?
( Etienne La Boétie )

E outros continuaram, uns em pé, outros sentados, outros deitados, outros de lado. Mas todos falavam. Cada um a seu modo, jeito e tom de voz. Era tanta coisa a entender. Era vasto demais. E às lágrimas dela rolavam apaixonada pela aula que todos se davam. Rosto feliz e reluzente de alguém que fizera entender que boa parte daquele momento gostoso e diferente quem fez foi a gente. Até rimou. Mas foi o que veio a mente neste momento. É rimou de novo. Talvez para demonstrar o tamanho de minha felicidade com a noite de ontem. Proporcionado por você. Apaixonada pelo que faz e com seu amor pelas palavras e por tudo que acredita defende. Nunca é tarde! E o tudo não está perdido. Eu tenho você, você e você e você. Nesta fala apontava para cada um de nós, sem falar nome. Que hoje à noite assistiu minha aula se entregando por inteiro.

Então nada mais me resta a não ser dedicar estas palavras e a música daquele que tanto declara gostar. Uma forma carinhosa de homenagear e guardar uma aula incrível, numa sexta-feira à noite, numa semana cheia e estranha, num cansaço que não sinto agora quando escrevo-te cada palavra. Um bem-estar que sinto depois de "perder" o sábado inteiro dormindo, acordando às 12:40 e voltando a dormir às 15:20 só despertando quase agora. Deixando tanta leitura, trabalho,o curso que lembrei agora, trabalhos para digitar...e tanta coisa deixada para depois.me dando este dia de presente, não fazendo nada. Só lembrando de ontem. À noite de aula-teatro incrível. À noite de Caetano. À noite de Etienne La Boétie.

Resta dizer obrigada Salete, eu não vou esquecer...

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