domingo, 4 de outubro de 2009

Procuro a solidão, esconderijo, silêncios, procuro construir

Sendo este um jornal por excelência, e por excelência dos precisa-se e oferece-se, vou pôr um anúncio em negrito: precisa-se de alguém homem ou mulher que ajude uma pessoa a ficar contente porque esta está tão contente que não pode ficar sozinha com a alegria, e precisa reparti-la. Paga-se extraordinariamente bem: minuto por minuto paga-se com a própria alegria. É urgente pois a alegria dessa pessoa é fugaz como estrelas cadentes, que até parece que só se as viu depois que tombaram; precisa-se urgente antes da noite cair porque a noite é muito perigosa e nenhuma ajuda é possível e fica tarde demais. Essa pessoa que atenda ao anúncio só tem folga depois que passa o horror do domingo que fere. Não faz mal que venha uma pessoa triste porque a alegria que se dá é tão grande que se tem que a repartir antes que se transforme em drama. Implora-se também que venha, implora-se com a humildade da alegria-sem-motivo. Em troca oferece-se também uma casa com todas as luzes acesas como numa festa de bailarinos. Dá-se o direito de dispor da copa e da cozinha, e da sala de estar. P.S. Não se precisa de prática. E se pede desculpa por estar num anúncio a dilacerar os outros. Mas juro que há em meu rosto sério uma alegria até mesmo divina para dar. (Clarice Lispector)

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Procuro a Solidão
Como o ar procura o chão
Como a chuva só desmancha
pensamento sem razão
Procuro esconderijo
encontro um novo abrigo
como a arte do seu jeito
e tudo faz sentido
calma pra contar nos dedos
beijo pra ficar aqui
teto para desabar
você para construir
(Esconderijo-Ana Cañas)

Sempre me escondi. Em qualquer lugar. Tão bem que ninguém me achava. Lugares pela casa, em volta dela, pelos matos, pelos lugares menores que encontrasse, eu sempre me escondi. Talvez por que a vida me fazia esconder sempre. Para imaginar em outro lugar que poderia ser quem quisesse, brincar rodando pelos ares, solta livre, brincando o tempo todo sozinha. O lugar onde morava era tão distantes de todos que o jeito mesmo era observar os bichos e seu comportamento e falar sozinha pelos caminhos que encontrava. Era raro alguém achar. Ninguém conseguia a não ser ela. Que sempre estava comigo quando precisava, ali perto logo no abraço. Pode parecer triste, mas não é. Para criança nada é tão fascinante quanto imaginar um mundo e brincar neste e fantasiar as mil voltas que pode fazer na imaginação. No instante que pode ser. Lugares secretos famílias que não existem podem se criar neste mundo. Bonecas falantes, brinquedos semi-novos, modernos na imaginação. Tudo solto e leve.

Quando ouvi a canção e com olhos maravilhados contemplei o clip, lembrei no ato quando era criança. Fazendo fusão agora e já com o momento adulta, bem como está no clip. Ela diz "procuro a solidão", tão estranho de ouvir. E quem hoje em dia procura a solidão? Quem a deseja? Se me disser isto, digo na hora é mentira. Ninguém a deseja. Ninguém a quer. Por que é ruim. A solidão é triste, vazia e abstracto. É o que queríamos ter e não temos, ela é a verdade de nossas falhas e medos. É o fracasso de ser humano e desejar e ter medo. Não me diga que a solidão é boa ok. Não fale isto para mim, que já me afoguei nela tantas vezes. Não me diga que não ter alguém é bom. Não me diga que viver sozinho é agradavél. Que mais cedo ou mais tarde com grandes dificuldades acostuma-se a ela. Não me diga! Diga sim, que assim como eu és tão covarde e medroso. Que tens medo de viver, tens medo das respostas que pode encontrar e ouvir. Diga que se acomodou a rotina de seus dias, ou enfado de ser sempre assim embora não queira.

Então, regressando quando era criança lembrei. Procurava esconderijos para brincar, pq não havia ninguém para ficar comigo ali, discutir brincadeiras, chorar, rir à toa e bem devagar, brigar por brinquedos, de bater se fosse necessário, sei lá tanta coisa. Não havia isso. Então o jeito era me meter mato a dentro e casas velhas e distantes da casa onde morava e fazer meu mundo. Meus amigos que não tinha tantas brincadeira que fazia. No fim percebi que era bom, ou tive que acostumar e achar bom ser assim. Eu me virava sozinha e o fato de ter esconderijos, lugares secretos que só eu sabia, dava um ar de poder. Hã, ninguém saberá, isto é meu. É meu poder, aqui ninguém manda a não ser eu. Ninguém fala alto e grosso e retranca comigo - palavras que doíam, para uma criança que mal entendia as coisas. Ou cenas q faziam chorar, sem entender como poderia ser daquele jeito. Sentia controle de tudo nos lugares onde me escondia.

Hoje, grande e com mais amigos do que de costume, ainda procuro lugares. Alguns esconderijos. Procuro como proteçãozinha básica fugir de situações que não tenho controle ou que não sei onde vai dar. Ué mais espera um pouco. Afinal de contas a gente sabe onde o quê e por quê vai parar em tal lugar? A gente sabe de alguma coisa nessa vida? A gente sabe como se proteger na verdade? A gente sabe o que fazer quando não tem controle com algo? Não. Eu nunca sei. Se tu sabes então me ensine, me dê a formula mágica para agir e ser diferente. Por que não faço ideia de como agir nos últimos tempos. Não tenho controle e não estou mais sustentando a pose de recatada e discreta, esta que sempre foram impressões minhas, sendo jogada pelos outros que dizem me conhecer. Tímida sempre. Reservado ao extremo, sempre. Não eu não quero a solidão. Não quero ficar sozinha e amarga. Não quero dizer não quando na verdade eu quero dizer sim.

Não quero a solidão nos meus dias. Não quero esconderijos. Não quero "brincar" sozinha nesta vida. Por que mesmo grande a gente brinca. Se não percebeu a vida é brincadeira séria, mas não deixa de ser brincadeira. É arte pura, cenas de protagonistas e coadjuvantes o tempo todo. Há tempos sou coadjuvante e deixo a cena do jeito que dá. Deixo tudo se levar, vento fácil rasgar a cortina e dizer vai ser assim, embora eu não queira. Não aprendi ainda muita coisa. Não aprendi a chamar alguém mesmo quando ele diz até logo. Até outro dia. Ou até nunca mais. Não aprendi a construir. Só sei brincar de esconderijo, quando as coisas não estão bem , quando eu não sei como agir. Quando olho para alguns dias e vejo tanto tempo já perdido.

Quando na verdade eu queria falar, por anúncio em qualquer lugar, dizer que procura-se esta pessoa, àquele que alegra dias. Não é assim aleatório não, seja homem ou mulher. É procura-se dando nome e sobrenome a este que bem encontrou tantos dias de solidão. Que me fez reparar bem em tantas coisas. Que alegrou sem saber e fez reviver algumas coisas que estavam mortas.

Bom, eu não aprendi ainda. A declarar as coisas tão bem como Clarice Lispector, em sábias palavras e ordem certa das coisas. Mas sei que há tempo e há esconderijos que são descobertos em tempo certo. Quando a gente já está cansado da solidão. Alguém sempre ouvi os nossos gritos de silêncios. Àqueles silêncios que nos deixam enlouquecer. Silêncio de vida. Silêncio de palavras. Silêncio. Silêncio.Eu sei preciso aprender a construir, mesmo no silêncio.(...)

3 comentários:

BRUNO L.S disse...

Eu sei muita coisa. Não sou covarde, medroso e tímido. Falo pelos cotovelos sempre. Achei alguém que suporta minhas besteiras.VOCÊ.Sugestões?Tenho muita (milhares) queridona!Ficar sozinha é algo que não acontecerá, pelo menos com você. Então que tal olhar mais hein? Hum, é isso mesmo. Responder recados, achados não ligados que tanto deixa de lado. Meu bem! Usando suas palavras é tempo de sair do casulo. E olha que asas você tem!

(o resto vou responder por e-mail e trate de voltar uma resposta em menos de 5 dias discaradona)

beijitos

Ana... disse...

...sempre tentanto levantar, ajudar...é Bru vc me faz falta. Alguém que entende ou tenta né.

Bom miguxo da minha vida, um dos melhores , um tantão insuportavel é verdade,e faço questão de não esquecer.E quem vê pensa né.hahahhahahhah,e quem não é medroso? bunda mole....kkk eu sou por isso voltarei a dançar, deixa tudo duro e no lugar, e ocupa mente que não deve ficar à toa.

E ontem mesmo li e já respondi a "carta" imensaaaaaaaa rsrsrrsrsr, vai besta depois fala de mim daqui uns tempos faz um blog e choraaaa, choraaaaaa, as pitangas, mazelas....etc..etc.etc.

beijo na bunda e até segunda miguxo.

Ana... disse...

..ahhhh e não foi ontem não... foi hj à tarde...ando sem noção de horários.Estou enviando (de novo)pq acho q voltou, caixa cheia d+ no trampo.

e eu vi as fotos, muito bacana hein, só vcs mesmo. Nestas viagens ninguém me convida né? Ordinário meso vou dedar tudinhoo