sábado, 28 de novembro de 2009

De tão grosteco e gostoso de ler,ganhou a sexta-Hilda Hilst

Ela adorava tordos com aspargos. E pastelões de ostras. Era preciso que eu telefonasse uma semana antes para os maîtres dos tais restaurantes. Tordo?! Nunca sabiam se era um pássaro ou um peixe. Eu imagino hoje que ela sempre acabava comendo um sabiá. Com aspargos. O pastelão de ostras era mais fácil. Mas os vinhos para acompanhar aquilo tudo! Josete entendia de vinhos como se tivesse nascido embaixo duma parreira de Avignon. Depois desse inferno todo, ainda tínhamos que dançar, porque é delicioso dançar com você amor, se você tivesse mais tempo...
-tenho todo o tempo do mundo, querida (talvez tivesse, mas nem tanto!)

Tinha mania de uma música: You've changed, e era aquela xaropada até às duas da manhã mais ou menos, quando eu já havia mergulhado meus dedos várias vezes na sua suculenta xereca. Abria discreta e elegante as pernas nas boates, embaixo da mesa, enquanto engolia com avidez aqueles vinhos caríssimos. Sorrindo soltava um pífio arroto de tordos e ostras abafado entre os seus dois dedinhos, enquanto os meus (dedos naturalmente) beliscavam-lhe a cona. Muitas beliscadinhas, muito dedilhado até que ela gozava escondendo o gozo e simulando um segredo e enchendo de bafo, gemidos e saliva a concha do meu ouvido. Eu dizia com a caceta dura e espremida entre as calças:
-vamos embora, hen bem?
-tá tão gostoso, amor (...)
E aí eu tinha que começar tudo de novo, não sem primeiro ouvi-la pedir as sobremesas e os licores.Os olhinhos cor de alcaçuz, úmidos, tremelicavam. A boca repetia lentamente (em inglês, lógico) esses últimos dois versos do tal gênio: "tattoo marks around the anus, and a circle of lady golfers about him".


Pensei: é agora que ela vai se levantar e esparramar os livros do nojento aqui na cama. E adeus mesmo, vou inventar uma súbita náusea e me mando. Surprise! Ah, como a vida me encheu de surpresas!(...)Aí pensei: essa maldita louca vai começar a choramingar mais alto e o prédio inteiro vai ouvir. Enchi-me de coragem e estraçalhei-lhe o rabo com inglesas ou americanas (who knows?) e babados e o chapéu, não naturalmente sem antes lhe tapar a boca, porque tinha certeza que ela ia zurrar como um asno. Zurrou abafada, mas eu podia discernir algumas palavras. Ela zurrava: ó (leia-se aou, aou, aou, entonação inglesa) Aou Ezra, aou my beloved Ezra! Nunca entendi.Também nunca perguntei. Certamente o nojento era o Shakespeare dela.(...)

Hilda Hilst - fragmentos Contos D'Escárnio/Textos Grotescos.

Adoro quando chega a sexta. sempre tenho o prazer de ler coisas deste tipo,e entendo como um delicioso momento,mais relaxada,sem a loucura da semana. Agora à noite, às 02h:38 tentando rascunhar algo para o blog dos 30, até agora nenhuma ideia, texto diferente para postar, quase sinto desespero por isto.E lembrando que daqui a pouco acordo cedo e a correria começa.Tudo por conta de trabalhos,trabalhos e seminários da faculdade, sabendo que só vou respirar preguiça no domingo à noite.E vambora, nada é fácil...a difícil/boa arte de (sobre)viver com sorriso no rosto, enfrentado o dia-a-dia de...sedes, fomes, bichos, pensamentos mil...

2 comentários:

Paulo Augusto Veira disse...

Olá
Navegando por aqui.
E aqui sobra bom gosto!

Parabéns,bom de ver e oubir

BRUNO L.S disse...

Isso é PUTARIA!!!!
kkk