sábado, 1 de maio de 2010

Primeira Noite

(...)E sem dúvida que nessa noite foi para mim ainda mais bela do que o dia. Regressei já tarde à cidade e eram dez horas quando me aproximava de casa. O meu caminho levava em direção ao canal, onde a essa hora não constumava haver ninguém. Vivo naquele bairro tranquilo e remoto. Ia caminhando e, ao mesmo tempo, cantava, pois quando me sinto feliz não tenho outro remédio senão cantar uma cantiga qualquer, como todo homem feliz que não tem amigos nem conhecidos, nem pessoas alguma com quem compartilhar os seus momentos de alegria. Mas eis então que me aconteceu nessa noite ver-me envolvido numa surpreendente aventura.

Não muito longe de mim, percebi uma figura de mulher; estava de pé e apoiava os cotovelos no parapeito da muralha, e parecia absorvida na contemplação das águas turvas do canal. Trazia um chapelzinho amarelo muito bonito e uma pequena e graciosa capa preta. "É uma moça, e morena, por certo", pensei eu. Parece não ter percebido os meus passos, pois não fez movimento algum quando eu passei por ela devagarinho, contendo a respiração e com o coração palpitante. "Que coisa estranha!", disse para comigo. "Deve estar completamente absorvida nos seus pensamentos!" E de súbito estremeci e fiquei pregado no chão: aos meus ouvidos chegavam soluços abafados. Se não era engano meu, a moça chorava... Passado um pequeno instante tornei a ouvir outro soluço e depois outro. Meu Deus! O meu coração teve um pressentimento. Por muito tímido que eu seja com as mulheres, naquele caso...é uma decisão, aproximei-me dela e...e teria sem dúvida começado por saudá-la..."Minha senhora!", se não me tivesse lembrado que essa expressão se encontra pelo menos mil vezes em todas essas novelas russas em que se descreve o ambiente da boa sociedade. Mas contive-me. Enquanto procurava uma fórmula de saudação apropriada, a moça voltou a si, e quando me viu baixou os olhos e afastou-se discretamente. Eu comecei a segui-la, o que ela pareceu notar; depois abandonou o cais, atravessou a rua e dirigiu-se ao outro passeio. Então já não me atrevi a segui-la. O meu coração batia como o de uma ave presa. Mas naquele momento o acaso veio em meu auxílio.(...)

Fiódor Dostoiévski
NOITES BRANCAS - fragmento (pg 18/19)

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