sexta-feira, 7 de maio de 2010

Dotadas para o amor

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- Eu vim - disse ela em voz baixa. - Você não está aborrecido?
- Não, não. Decerto Hermínia lhe deu minha chave. Pode ficar.
- Oh! Estou achando que ficou aborrecido.É melhor ir-me embora.
- Não, formosa Maria, fique! É que hoje precisamente estou muito triste não poderia mostrar-me alegre hoje, amanhã decerto estarei.

Eu me inclinara um pouco sobre ela, então me agarrou pela cabeça com suas mãos grandes e firmes, me puxou para si e me beijou demoradamente. Depois sentei-me a seu lado, segurei-lhe a mão, roguei-lhe que falasse baixo, para que ninguém nos ouvisse, e olhei-a bem no rosto bonito e cheio, que parecia uma flor estranha e grande sobre o meu travesseiro.Lentamente, levou-me a mão à boca, depois introduziu-a sob o lençol e colocou-a em seu seio cálido e palpitante.

- Não precisa estar alegre - disse ela.- Hermínia me disse que você tem problemas. Qualquer um pode perceber isso. Diga-me somente uma coisa: Eu lhe agrado? Outro dia, ao dançar comigo, achei-o muito interessado em mim.


Beijei-lhe os olhos, a boca, o pescoço e os seios. Um momento antes eu havia pensado em Hermínia com amargura e reprovação. Agora eu tinha nas mãos o presente que ela me enviara, e estava agradecido. As carícias de Maria não conspurcavam a música maravilhosa que eu ouvira aquela noite. Eram dignas dela e como que a contemplavam. Lentamente, retirei as roupas de cima de seu corpo admirável para que meus beijos pudessem chegar aos seus pés. Quando me deitei ao seu lado, a flor de sua face sorriu onisciente e bondosa.

Naquela noite, ao lado de Maria, não dormi muito, mas meu sono foi profundo e bom como o de uma criança. E entre um sono e outro eu bebia sua alegre e formosa juventude e ouvi, enquanto falavamos baixinho, um sem-número de detalhes curiosos sobre sua vida e a de Hermínia. Eu sabia pouco sobre essa espécie de vida. Somente no mundo teatral, ocasionalmente, deparara com similares existências - homens e mulheres que viviam metade para a arte e metade para o prazer. Agora, pela primeira vez, podia lançar uma olhada sobre aquela espécia de vida, extraordinária não só por sua singular corrupção. Essas jovens, provenientes em sua maioria de famílias pobres, demasiado inteligentes e bonitas para atirarem suas vidas simplesmente em qualquer ganha-pão malremunerado e melancólico, viviam todas de empregos ocasionais ou mesmo de sua graça e amabilidade.

Passavam, ás vezes, um ou dois meses empregadas como datilógrafas;depois algum tempo como amantes de pessoas de dinheiro, recebendo mesadas e presentes;viviam algum tempo entre peles, automóveis e hotéis de luxo; outras vezes, em águas-furtadas;e embora pudessem chegar ao casamento por causa de um bom partido, não viviam de forma alguma ansiosas por isso. Muitas delas amam sem desejo e só concedem seus favores contra a vontade e por alto preço. Outras, e Maria era uma delas, eram extraordinariamente dotadas para o amor e incapazes de passar sem ele; a maioria era também experiente no amor com ambos os sexos. Viviam exclusivamente para o amor e, juntamente com o amante oficial que as mantinha, quase sempre deixavam florescer outros amores. Ativas e diligentes, prudentes e loucas, apesar de tudo essas mariposas viviam sua vida tão infantil quanto refinada, independentes, não se vendendo a qualquer um, vivendo mais ou menos do momento e, embora apegadas à vida, o eram menos que os burgueses, sempre prontas a seguir um princípe encantado a seu castelo, mas sempre com o pressentimento de que um final difícil e triste esperava.


Maria ensinou-me muitas coisas - naquela maravilhosa primeira noite e nos dias seguintes -, não apenas encantadores novos jogos e prazeres dos sentidos, mas ainda uma nova compreensão, um novo conhecimento, um novo amor (...)

Tornamos a dormir.Voltei a despertar, sem deixar de manter-me abraçado á minha formosa flor. E que prodígio! Aquela formosa flor continuava sendo sempre o presente que Hermínia me enviara! Hermínia permanecia constantemente por trás dela, disfarçada dentro dela!

Hermann Hesse
O LOBO DA ESTEPE - Fragmento ( pg.158/159/160/162)

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