domingo, 16 de maio de 2010

Helena & Estácio

Era a primeira vez que Helena aludia ao amor de Estácio, e fazia-o por modo encoberto e oblíquo. Estácio escapou dessa vez à regra de todos os corações amantes:resvalou pela alusão e discutiu gravemente o assunto da candidatura.Era pesado demais para cabeça feminina; Helena intercalou uma observação sobre dois passarinhos que bailavam no ar, e Estácio aceitou a diversão, deixando em paz os eleitores.Durante dois dias não saiu ele de casa.

Tendo recebido alguns livros novos, gastou parte do tempo em os folhear, ler alguma página, colocá-los nas estantes, alterando a ordem e a disposição dos anteriores, com a prolixidade e o amor do bibliófilo. Helena ajudava-o nesse trabalho, - um pouco parecido com o de Penélope, - porque a ordem estabelecida ao meio-dia era ás vezes alterada às duas horas, e restaurada na seguinte manhã. Estácio, entretanto, não ficava todo entregue aos livros; admirava a solicitude da irmã, a ordem e o cuidado com que ela o auxiliava. Helena parecia não andar; o vulto resvalava silenciosamente, de um lado para outro, odedecendo às indicações do irmão, ou pondo em experiência uma idéia sua. Estácio parava às vezes fatigado; ela continuava impertubavelmente o serviço. Se ele lhe fazia algum reparo, a moça respondia erguendo os ombros ou sorrindo, e prosseguia. Então Estácio segurava-lhe nos pulsos e exclamava rindo:

- Sossega, borboleta!
Helena parava, mas eram só poucos minutos; volvia logo ao trabalho com a mesma serena agitação. Era assim que as horas se passavam na intimidade mas doce, e que a recíproca afeição ia excluindo toda a preocupação alheia; era assim que influência de Helena assumia as proporções de voto preponderante.

Machado de Assis
HELENA - fragmento (pg.53/54)

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