sábado, 15 de maio de 2010

"O gosto é cinzento, um pouco avermelhado, nos pedaços"

A dor cansada numa lágrima simplificada. Mas agora já é desejo de poesia, isso eu confesso, deus. Durmamos de mãos dadas. O mundo rola e em alguma parte há coisas que não conheço. Durmamos sobre Deus e o mistério, nave quieta e frágil flutuando sobre o mar, eis o sono.

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Por que ela estava tão ardente e leve, como o ar que vem do fogão que se destampa?
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O dia tinha sido igual aos outros e talvez daí viesse o acúmulo de vida.Acordara cheia da luz do dia, invadida. Ainda na cama, pensara em areia, mar, beber água do mar na casa da tia morta, em sentir, sobretudo sentir. Esperou alguns segundos sobre a cama e como nada acontecesse viveu um dia comum. Ainda não se libertara do desejo-poder-milagre, desde pequena. A fórmula se realizava tantas vezes: sentir a coisa sem possuí-la. Apenas era preciso que tudo a ajudase , a deixasse leve e pura, em jejum para receber a imaginação.

Difícil como voar e sem apoio para os pés receber nos braços algo extremamente precioso, uma criança por exemplo. Mesmo só em certo ponto do jogo perdia a sensação de que estava mentindo - e tinha medo de não estar presente em todos os seus pensamentos. Quis o mar e sentiu os lençóis da cama. O dia presseguiu e deixou-a atrás, sozinha.

Clarice Lispector
PERTO DO CORAÇÃO SELVAGEM - fragmento (pg 22/23)

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