domingo, 27 de junho de 2010

"Domingo era o descampado de um homem" C.Lispector


Até que agora - sem nenhum desejo, cada vez mais leve, como se também a fome e a sede fossem um desprendimento voluntário de que ele estava começando aos poucos a se envaidecer - até que agora ele avançava enorme no campo, olhando ao redor de si com uma indepêndencia que lhe subiu em prazer grosseiro para a cabeça, e começou a tonteá-lo em felicidade. "Hoje deve ser domingo" - chegou mesmo a pensar com certa glória, e domingo seria o grande coroamento de sua isenção. Hoje deve ser domingo! pensou com súbita altivez como se o tivessem ofendido na honra.

Trata-se de seu primeiro pensamento claro desde que deixara o hotel. Na verdade, desde que fugira, era o primeiro pensamento que não tinha mera utilidade de defesa. De início, aliás, Martim até não soube o que fazer com ele. Apenas agitou-se à novidade, e coçou-se voraz sem parar de andar. Então, aprovando-se com ferocidade e acompanhando o pensamento com um encorajamento rouco, repetiu:hoje deve ser domingo.

Aparentemente devia ser mais uma constatação indireta de si próprio do que do dia da semana, pois, sem parar um segundo de caminhar, ele completou o radiante e seco olhar ao que acabara de chamar de "domingo" com um apalpamento desajeitado dos bolsos. Sem nenhuma razão, senão a do próprio cansaço, estava caminhando cada vez mais depressa. Na verdade agora mal conseguia se acompanhar. E excitado nessa competição com seus próprios passos - olhou em torno com inocente deslumbramento, a cabeça fervendo de sol.

Sem contar os dias passados não havia motivo para achar que seria domingo. Martim então parou, um pouco embaraçado pela necessidade de ser compreendido, da qual ele ainda não se livrara.

Mas a verdade é que o descampado tinha uma existência limpa e estrangeira. Cada coisa no seu lugar. Como um homem que fecha a porta e sai, e é domingo. Além do mais, domingo era o primeiro dia de um homem. Nem a mulher fora criada. Domingo era o descampado de um homem. E a sede, libertando-o, dava-lhe um poder de escolha que o inebriou;hoje é domingo! determinou categórico.

Então sentou-se numa pedra e muito teso ficou olhando. O olhar não esbarrou em nenhum obstáculo e errou num meio-dia intenso e tranquilo. Nada o impedia de transformar a fuga numa grande viagem, e estava disposto a fruí-la.Olhava.

Mas há alguma coisa numa extensão de campo que faz com que um homem sozinho se sinta sozinho. Sentado numa pedra, o fato final e irredútível - é que ele estava ali. Então, com súbito desvelo, sacudiu amoroso a poeira do paletó. De um modo obscuro e perfeito ele próprio era a primeira coisa posta no domingo. O que tornava precioso como uma semente, ele tirou um fiapo do paletó. No chão sua sombra preta e definida delimitava sem engano favorável até onde ele era. Ele mesmo era o seu primeiro marco.

Se bem que, além de tentar se limpar por mera questão de decência, o homem não pareceu ter a menor intenção de fazer alguma coisa com o fato de existir. Estava era sentado na pedra. Também não pretendia ter o menor pensamento sobre o sol.

Era nisso pois que dava a liberdade. Seu corpo grunhiu com prazer, o terno de lã lhe dava pruridos no calor. A ilimitada liberdade o deixara vazio, cada gesto seu repercutia como palmas na distância; quando ele se coçou, esse gesto rolou diretamente para Deus. A coisa mais desapaixonadamente individual acontecia quando uma pessoa tinha a liberdade. No começo você é um homem estúpido tendo a mais a grande solidão. Depois, um homem que levou uma bofetada na cara e no entanto sorri beato porque ao mesmo tempo a bofetada lhe deu de presente uma cara que ele não suspeitava. Depois, aos poucos, você começa, sonso, a fazer casa e a tomar as primeiras intimidades impudicas com a liberdade; você só não voa por que não quer, e quando se senta numa pedra é porque em vez de voar sentou-se.

Clarice Lispector
A MAÇA NO ESCURO - fragmento (pg.26/27)

Gosto do que estou lendo. Apesar de notar certa diferença na escrita de Clarice neste livro. Não sei bem identificar/revelar a diferença, apenas sinto-a diferente.Lendo numa estranheza total, mas gostando d+.

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