sexta-feira, 25 de junho de 2010

A serpente lhe apontava, árvore da ciência do bem/mal.

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A ciência é árdua e seus resultados fazem menos ruído. Não tem vocação comercial e industrial. Medita alguma ponte pênsil entre a corte e Niterói, uma estrada até Mato Grosso ou uma linha de navegação para a China? É duvidoso. Seu futuro tem por ora dois limites únicos, alguns estudos de ciência e os aluguéis das casas que possui. Ora, a eleição nem lhe tira os aluguéis nem obsta a que continuei os estudos; a eleição completa-o, dando-lhe a vida pública , que lhe falta. A única objeção seria a falta de opinião política; mas esta objeção não o poder ser. Há de ter, sem dúvida, meditado alguma vez nas necessidades públicas, e...

- Suponha, - é mera hipótese , - que tenho alguns compromissos com a oposição.

- Nesse caso, dir-lhe-ei que ainda assim deve entrar na Câmara - embora pela porta dos fundos. Se tem idéias especiais e partidárias, a primeira pela porta dos fundos. Se tem idéias especiais e partidárias, a primeira necessidade é obter o meio de as expor e defender. O partido que lhe der a mão, - se não for seu, - ficará consolado com a idéia de ter ajudado um adversário talentoso e honesto. Mas a verdade é que não escolheu ainda entre os dois partidos; não tem opiniões feitas. Que importa? Grande número de jovens políticos seguem, não uma opinião examinada, ponderada e escolhida, mas a do círculo de suas afeições, a que os pais ou amigos imediatos honraram e defenderam, a que as circunstâncias lhe impõem. Daí vêm algumas legítimas conversões posteriores. Tarde ou cedo o temperamento domina as circunstâncias da origem, e do botão luzia ou saquarema nasce um magnífico lírio saquarema ou luzia. Demais, a política é ciência prática; e eu desconfio de teorias que só são teorias. Entre primeiro na Câmara; a experiência e o estudo dos homens e das coisas lhe designarão a que lado se deve inclinar.

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Estácio ouviu atento estas vozes com que a serpente lhe apontava para a árvore da ciência do bem e do mal. Menos curioso que Eva, entrou a discutir filosoficamente com o réptil.


Machado de Assis
HELENA - fragmento (pg.50)

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