sábado, 5 de junho de 2010

Um pedacinho da África, na casa do Frei, provérbio e Mia

.


Uns sabem e não acreditam. Esses não chegam nunca a ver.
.
Outros não sabem e acreditam. Esses não vêem mais que um cego.
.
(Provérbio de Tizangara) - Mia Couto


.

Era tempo de regressarmos à pensão. Soprava um vento pontiagudo. O mesmo recepcionista estava na soleira da porta varrendo umas placas de plástico. Algumas das letras do anúncio haviam caído com a ventania. Lia-se agora: "Martelo Jo".

O italiano, cansado, nem se sentiu adormecer. Nessa noite, um estranho sonho tomou conta dele: a velha do corredor entrava no quarto, se despia revelando as mais apetitosas carnes que ele jamais presenciara. No sonho, o italiano fez amor com ela. Massimo Risi nunca tinha experimentado tão gostosas carícias. Ele rodou e rerodou nos lençóis, gemendo alto, esfregando-se na almofada. Se era pesadelo, ele muito se divertia.

Despertou suado e sujo, o peito ainda resfolegando. Olhou em volta e reparou que alguém mexera nas suas roupas. Alguém estivera no quarto. Levantou-se e viu o balde com água. Suspirou, aliviado. Tinha sido, certamente, o rapaz da pensão. Massimo lavou-se com a ajuda de um copo. Barbeou-se com o resto da água do banho. Ficou olhando o balde como se reparasse, pela primeira vez, o quanto pode valer um pouco de água. Depois, saiu do quarto e foi-se esqueirando pelo corredor quando um braço o fez parar. Era a velha Temporina. O italiano estacou gelado. Dengosa, a velha deu uns passos em redor do estrangeiro. Depois encostou-se, requebrosa, na porta do quarto. Sorriu estranhamente apontando a própria barriga.

O homem ficou com a boca na nuca. A velha sorriu, passou um dedo sobre os lábios do estrangeiro e reentrou no quarto, fechando a porta atrás de si. Risi tresandarilhou pelo corredor antes de regressar aos aposentos. Sentou-se na borda da cama e, de novo, lhe chegaram lembranças do sonho.(...)

Mia Couto
O último voo do Flamingo - fragmento (pg.57/58)

Nenhum comentário: