sábado, 3 de julho de 2010

“Fatalismo significa dormir entre salteadores” ( Waly S )

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SARGAÇOS

para Maria Bethânia


“Fatalismo significa dormir entre salteadores”
Jalâl al-Dîn- al- Rume, poeta sufi


Criar é não se adequar à vida como ela é,
Nem tampouco se grudar às lembranças pretéritas
Que não sobrenadam mais.
Nem ancorar à beira-cais estagnado,
Nem malhar a batida bigorna à beira-mágoa.

Nascer não é antes, não é ficar a ver navios,
Nascer é depois, é nadar após se afundar e se afogar.
Braçadas e mais braçadas até perder o fôlego
(Sargaços ofegam o peito opresso),
Bombear gás do tanque de reserva localizado em algum ponto
Do corpo
E não parar de nadar,
Nem que se morra na praia antes de alcançar o mar.

Plasmar
bancos de areias, recifes de corais, ilhas, arquipélagos, baías,
espumas e salistres,
ondas e maresias.

Mar de sargaços

Nadar, nadar, nadar e inventar a viagem, o mapa,
o astrolábio de sete faces,
O zumbido dos ventos em redemunho, o leme, as velas, as
cordas,
Os ferros , o júbilo e o luto.
Encasquetar-se na captura da canção que inventa Orfeu
Ou daquela outra que conduz ao mar absoluto.

Só e outros poemas
Soledades
Solitude, récif, étoile.

Através dos anéis escancarados pelos velhos horizontes
Parir,
desvelar,
desocultar novos horizontes.
Mamar o leite primevo, o colostro, da Via Láctea.
E, mormente,
remar contra a maré numa canoa furada
Somente
para martelar um padrão estóico-tresloucado
De desaceitar o naufrágio.
Criar é se desacostumar do fado fixo
E ser arbitrário.
Sendo os remos imateriais

(Remos figurados no ar
pelos círculos das palavras.)

(autor: Waly Salomão. livro: Lábia. editora: Rocco)
Chupado daqui : http://prosaempoema.wordpress.com/2009/09/09/um-instrumento-do-meu-prazer-waly-salomao-2/

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