sábado, 3 de julho de 2010

A mordida era torta. Mais do que o dente da frente, a mordida era muito torta. E fazia com que mordesse a língua ao invés do alimento. Um dia resolveu que não queria mais morder a língua. Então foi ao dentista. Passou por quatro cirurgias para arrancar os benditos dentes do siso, ou do juízo. E para que Deus? Já não basta o pouco que tem. Agora arranca-lhe o resto do juízo? Cada dois meses arrancava um, pontos, sangue e sorvete. O sorvete era recomendação da dentista, mas gostou tanto de saber que durante duas semanas seguidas, e mais oito meses, sendo uma cirurgia com intevalo de dois mês, seria obrigada a tomar o que mais gostava, sorvete. Muito estranho quando colocou, se sentiu muito feia. Mas depois percebeu que brincar com as cores das borrachinhas e trocá-las era divertido. Usou todas as cores e mês a mês ia até lá, para apertar fio, trocar borrachas e trocar as cores. Entre conversas, risos e babas, fez amizade. A dentista ficou amiga e hoje riem de situações engraçadas da vida corriqueira. Decidiram hoje que estava na hora de tirar, assumir o estampado na cara. Tirou. Mas com móvel, aquela sensação de língua presa e falando fanha. Horrível a sensação. Engole estranho a saliva, e para comer tem preguiça, uma vez que o tira para que possa mastigar. Ainda não sabe quanto tempo ficará com este. Confessa que sentiu falta do praxis, das borrachas, do fixo nos dentes, pois neste se acha meio banguela, acho que é a palavra certa, para descrever a sensação. Depois de longos cinco anos , deixar para trás, até mesmo o que todos dizem detestar, é estranho demais. Mas requer adaptações. Com o móvel, sentindo-se super estranha. Por não conseguir falar direito e sentir essa língua um pouco presa. E analisando como foi seu dia, se vê até bem. Acordou cedo, para quem aos fins de semana o cedo é às 13:00 hrs, hoje foi às 09:00. A entrega logo cedo do livro de Virginia Woolf "A Viagem" e "Entre os atos", prefácio intrigante, feliz da vida por descobrir Virginia, e já pensa na próxima aquisição "As Ondas ". Após encontro com sra. Nakadami, despedidas ainda com direito até próximo mês, sabendo que agora serão bem poucas as visitas. Encontra a , velha amiga mas nem por isso menos amada. O sofrimento daquela hora de tortura, onde ser mulher custa caro e dor. Os reflexos na cor que já estava desbotando, o vermelho nas mãos e nos pés. Um perfume maravilhoso, comprado a sra.Herrera. Olhos indiscretos observando a blusa dela subir, com passos rápidos, sem pudor ela deixa olhar, virando para trás com sorriso danado - afinal olhar não arranca pedaço. E lembra agora, às portas os 30 anos, a idade da loba na família. Enfim, a curiosidade será sanada, saberá o que esconde a idade e os mistérios das mulheres depois dos 30 nessa família. Será uivos? O lance na noite à fora? Que seja muita saúde e ousadia para viver, assim espera. Com pressa mais sem esquecer que devagar é melhor e mais gostoso. A apartamento vazio, e sempre aquela sensação de que falta algo/alguém. Então no elevador, fecha os olhos sabendo que mesmo que falte, abrindo a porta não encontrará ninguém, além dela e paredes.Lembra que a briga de semanas atrás, rendeu maturidade e saber que não é só porque é irmão (mais novo), pode falar/fazer o que bem entende. Usando-a como escudo, justificando erros. Ela não pode tomar as redeas da vida de ninguém. Como aquela amiga disse - "o homem é protagonista da sua história", que seja então. Ele sempre contando com as atitudes machas dela, desde que entendeu que não tem sorte com homens, ela decide dar um basta e deixá-lo viver como bem entende. Mesmo sabendo que é saltar sem para-quedas. Doí porque ele é sangue do mesmo sangue. Nem quem a fez dando vida e nem quem cresceu com ela, se fez amigo. Na verdade nem mesmo estranhos. Isso serviu para pensar que: nunca encontrou quem a salvasse dessa solidão, a tirasse então para dançar, mesmo sabendo que de madrugada as luzes se apagam e é cada um pro seu lado. A morte lembra que nada é para sempre. Volta e meia acredita que algo bom está por vir. Então sorri, e sente a língua passar entre os dentes lisinhos. Estranho. Ela sente que está mudando, aos pouquinhos ela está crescendo... [ às 21:40 noite, inverno de julho/2010 ]

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