domingo, 17 de outubro de 2010

O mar foi,desde sempre,um avô que mora longe.(eu volto)

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Com água pelo pescoço e os pés saltando para equilibrar-se entre uma onda e outra – o que no mar dá a sensação de estarmos voando, e isso é saboroso – dei-me conta de que havia pelo menos cinco anos que não o fazia: entrar no mar. Lavar com sal as pestes, deixar num canto da areia as vestes, sentir o pavor contemplativo de ser nada diante daquela imensidão.

É, de certa forma, um exercício de resignação. Um respeito imposto sem resistência. Ele, o mar, não te deixa outro caminho a não ser admitir que possui o completo controle sobre quem vai adiante da faixa branca de espuma que parece fechar as ondas com um ferrolho. Dali não passam. Dali para frente tudo é dele.

Fui menino criado entre açudes de sertão e praias de veraneio. Medo, nunca tive. Às vezes tédio, confesso, daquele vai e vem infindo de ondas. Pulando de um mourão da cerca que ia da lavoura até o açude da infância, o mundo parecia meu. O mundo muito mais fácil de ter do que aquele mar de tanto mar.

O mar foi, desde sempre, um avô que mora longe. Aconchegante, cheio de mimos, castelinhos, areia, duna e tanta coisa, mas distante. No meio dos inúmeros mergulhos que me custavam no fim do dia a pele ardida e os olhos pegando fogo, além de gramas de sal engolidos involuntariamente, a saudade da água doce que cortava os riachos na época do inverno. Inverno sem frio, de chuva, muita, arrebentando as cabeceiras e sangradouros.

O mar é diferente. Não tem onde desembocar, não sangra, não enche só por causa da chuva. Com chuva, aliás, ele nem faz tanto sentido assim.

Havia a devoção, como ainda há. Nas pedras e conchas catadas no fim de cada tarde todos os dias, um ritual. Os dias eram trinta, geralmente. No último deles era certo ouvir alguém gritando da varanda da casa de praia “menino, vem embora, estamos indo embora!”.

E eu lá, devolvendo uma a uma as pedras e conchas que catei durante um mês. Um trato silencioso: no que era do mar, ficava também um pouco de mim. As lembranças iam todas, intactas. Da areia fugindo dos pés quando bate a onda forte, da fome e do cansaço depois de uma manhã inteira engolindo água e correndo na beira. De parte a parte a certeza de que, apesar de ser bem vindo, a água do meu gosto e costume era doce, de rio e açude. Levava também a certeza de que eu retornaria um ano depois, e depois, e depois.

Quando voltei à superfície para respirar, o assunto já havia mudado. Os dois companheiros de mergulho num mar que nem era aquele a que havia me acostumado – em vez de coqueiros ao redor, serras e mata atlântica – falavam algo sobre família, lembranças, infância. Parece que tinham ouvido o remoer dos meus pensamentos caleidoscópicos. Em trinta segundos debaixo do mar, navegando a esmo, pensei que somos, no fim das contas, o que restou da nossa infância. Da minha restou açude e rio, que quando enche corre água pro mar. Mas não é sempre que há inverno aqui.
( Rodrigo Levino )

Créditos - Blog do Ailton

À procura de algo gostoso para ler. Mas assim, bem ao descaso, nada de autores conhecidos nomes ilustres da literatura, do qual a gente está familiarizado. Claro, sempre fugindo à regra, Clarice Lispector, que sempre, sempre e sempre estará neste espaço. Quero-a "viva", quero todos convictos da minha paixão por ela. Mas procuro diversificar, mudar um pouco. Não é questão de desgostar, enjoar, emputecer dos autores ilustres, nada disso. Deve ser fome de algo diferente. Variar o cardápio um dia e outro. Às vezes uma saladinha mais colorida, uma mistura (agri)doce. E hoje, quis algo bem gostoso. Aí nessas "andanças" pela net, navegando, navengando, navegando no meu barquinho/mundinho restrito, (re)encontro Rodrigo. E porra, caro leitor me desculpe a partícula enfática, nome bonito, para camuflar um palavrão. Ah onde estava mesmo, lembrei.E porra, Rodrigo me pegou, um tempinho atrás com o livro "Aos pedaços" gostoso demais de ler. Livro que li, bem aos pedaços mesmo, pq era emprestado. Uma pena não ter comprado.A leitura é de uma beleza e leveza que fiquei deslumbrada com o moço. E hoje cai acidentalmente num trecho bonito, mas melancólico/triste. E sinceramente não ando no pique de ler nada melancólico. Prefiro o bonito e saudosista mas sem a ordinária melancolia. Este trecho deixo para colocar nos dias cinza/nublado. E no pulo-do-gato, achei outro "Do mar que somos" que de cara li, gostei e postei. E me fez um bem danado. Outra anotação para não esquecer de comprar também "Dias estranhos", livro de crônicas cotidianas, que tem como primeira crônica "Do mar que somos". Uma belezura :))

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