domingo, 5 de dezembro de 2010

O capítulo 5


5.

Assim contemplada do Jardim, a enchente da maré engana os olhos e a mente, na hora em que o sol já invade tudo o que se descortina, esbatendo tons de açafrão reluzente entre as folhas das amendoeiras, as ameias da Fortaleza e os contornos das nuvens. Muitas embarcações vão aproveitando o empuxo da correnteza e bordejam o lado fronteiro no prumo da Ilha, embora grande parte já de longe talhe derrota para os portos de dentro do Recôncavo e outra parte aproe afora depois de costear a leste, o velame alvo ou ocre pálido panejando contra o azul-escuro das águas mais fundas da baía. Ajuntamentos de mariscadores bulindo lá e cá como formigões vagarosos, curvados sobre a areia ou de joelhos em crateras de lama almiscarada, estalos e gorgolejos borbotando todo o tempo do vasto baixio que se funde com o horizonte, a maresia robustecida pelo sargaço amontoado ao pé do cais - e a enchente igual a um bicho engatilhado, que finge dormir mas está de bote armado, pressentida apenas no ronco do marulho longínquo. Quem não aprendeu, nada percebe. Por isso daí a pouco se surpreende e não raro se intimida com a água e roldão repentino sobre a areia dura, encobrindo-a como um lençol estendido às pressas, o mar alastrado passando a emoldurar o mundo e tomando posse da paisagem e dos ares. Desde cedo, os mais velhos procuram mostrar aos novatos na vida que nada resiste ao poder circunspecto da maré, a qual não faz alarde nem estardalhaço, mas ignora o que lhe esteja à frente e cumpre infalivelmente o seu curso, lição que, se levada em conta, conduz a uma existência bem menos inquieta do que ela sempre procura ser. Os olhos de Tertuliano, porém, não se enganaram, porque tinham visto essa mesma paisagem ao longo de muitas décadas. A lua se fora, e agora arremetia de lá aquela enchente grande de fim de verão, carregando ainda mais tenências para as primeiras horas de seu neto, mas ele não estava pensando nisso. Pensava no que a conversa com Gato Preto lhe trouxera à memória. De fato, bonitas explicações, de grande relevo e credoras de total confiança, pois emanadas da fonte mais limpa de que podia dispor. Também esplêndida a sugestão, já selada e carimbada, de dar o menino para Seu Zé Honório e Dona Roxinha batizarem, ajudando na criação e habilitação para a vida. Tudo muito proveitoso e merecedor de diversas anotações de providências a tomar, mas o pensamento de Tertuliano não conseguia manter-se nesse terreno, escapava a seu comando e vagava para recordações tão claras que pareciam cinema colorido. Mais que cinema, era como se tudo estivesse sendo revivido, a ponto de volta e meia ele ter vontade de arrancar os miolos e limpá-los, com o coração descompassado, vertigem, falta de ar e até mesmo um tremor invencível no queixo, como quando era pequeno e ia começar a chorar. Diabo, quem manda na pessoa é a pessoa - não é a pessoa que manda na pessoa? Não, nem sempre, e por isso se diz "ninguém se faz", pois ninguém se faz mesmo, já nasce com a sua natureza. Ele não queria que o turbilhão que lhe engolfava o juízo o desviasse da tarefa que tinha diante de si, a proteção e encaminhamento do neto, mas nada nele obedecia à sua vontade, nem sequer as unhas, que se cravam nas palmas das mãos do mesmo jeito com que se cravaram no dia cuja memória Gato Preto despertara, o dia que acabara de sentir mais uma vez, tão brutalmente terrível.

João Ubaldo Ribeiro
O Albatroz Azul - fragmento (pg.73-75)

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