domingo, 23 de janeiro de 2011

Adélia Prado

QUANDO INAUGURARAM a luz elétrica na minha casa, meu pai convidou os vizinhos e serviu café acompanhado, depois de rezar o terço,onde se contemplou no quarto mistério glorioso, como Jesus, quarenta dias após sua ressurreição, subiu ao céu na presença de sua mãe santíssima e dos apóstolos. Não esplende o sol, como esplendeu naquele dia a lâmpada Alva Edilson sobre a mesa quadrada e nossas quatro cadeiras. Que lugar terá este fato irreversível, no cômputo final, quando o Senhor reunir o povo pra separar os bodes dos carneiros, assim como os sacos plásticos e as carteirinhas, onde os fotógrafos acomodam para os fregueses seus retratos três por quatro e mais esta frase escrita com letra ginasial na página de um livro de Histórias do Brasil: " Ferreira Brito substituiu Araújo Ribeiro." O que me acaba é esta vocação pra almoxarifar, meu olho moralista, o vício da chave de ouro para os sonetos e as dedicatórias, o sistema de puxar pela manga e perguntar seja a quem for: como é que é mesmo? Gostava de botar o espelhinho na janela e ficar fazendo a barba com os pés no chão para aproveitar o calor. Não ia morrer, naquele tempo não ia morrer. Cantava "já podeis da pátria filhos", erguendo o dedo e a voz, um peito pra amor febril. Não ia morrer, a vida palpitava subindo e descendo, dos pés à cabeça. Tinha um lugar pra dormir, outro pra comer, outro pra gostar de dueto e o melhor deles que usava pra dizer com dicção preciosa: "princípe negro, rosa príncipe negro", com uma claridade advinda dos glóbulos mesmo do sangue, de sua alma deodata. Levamos nossa fé em vasos de barro, diz o apóstolo que me magoa por tratar mal as mulheres. Mas naquilo ele tem razão. E não só a Fé, a Beleza também é Bem portátil que se ganha e carrega. Veio de antes de nós, foi gerada de cima e concedida. Por isso, uma e outra transem. Nosso é só o espinho, o estrume, a unha cheia de terra. Sabendo que me ultrapasso eu digo a você, pra celebrar o nosso caso, como disse o chefe islamita em discurso ao bispo, pra celebrar a surpreendente união de maometanos e cristãos numa comunidade indonésia "nosso amor é como bosta de búfalo, cai mas não racha". Como vê, nem o excremento é nosso, se lhe pega a poesia. Pura graça o que nos move.Vou é chorar de tanta pobreza.
Adélia Prado - Livro: Solte os cachorros -fragmento [ pg.16/17]

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