sábado, 5 de fevereiro de 2011

Três Ovos de Páscoa

Eu falo pro doutor a verdade. Não vou mentir. São três boquinhas que me pediram:
- Mãe, eu quero ovo de Páscoa.
Eu não tinha dinheiro. E bem dizer passando necessidade com três crianças pequenas.
Aí eu entrei lá. Mas não entrei assim. Não tenho passagem na polícia e sempre trabalhando. Desde que vim do sítio com 13 anos. Daí deu uma coisa ruim na minha cabeça, sabe, né? Lá dentro.
Cê vê todo mundo comprando e levando. Cheio de pacote e sacola. Uma chuva de ovo pendurado. E a imagem dos três anjinhos me pedindo. Eles têm 5,7 e 11 anos. Com essa idade hoje ninguém trabalha. Sabe o que fiz, né? Aí pequei depressa e enfiei na blusa três ovnhos. E duas gomas de mascar.
Eu posso responder, sim, quantos peguei. Três ovos pequenos porque são três piás. Foi um pra cada um. Mas essa margarina não estava no meio. E agora me lembro que a goma de mascar eu comprei no Um Nove Nove.
A gente não foi pra pegar, não. Na hora é que deu uma loucura lá. Cê tá numa situação e faz essa burrada aí.Foi um momento de fraqueza. Toda aquela gente comprando e rindo e levando.
Um desperdício de chocolate.As madames bem que gostam de bombom. Comem até uma caixa inteira. Se lambuzam até sair pelo nariz e a orelha. E pra gente? Nadinha de nada?
Não saí combinada pra roubar. Nem sabia como ia fazer. Aí fui pegando igual estivesse sozinha. E ninguém me visse. Foi uma doideira. Só entrei lá pra olhar o preço dos ovos. As crianças pediam e, chega na Páscoa, todo mundo ganhando, já viu, né?
Eu tava com 25 pra pagar a àgua e a luz. A gente queria pagar né? Mas o homem não quis receber. Disse que era pouco.Tinha muita prestação atrasada.
Daí que aconteceu. Me barraram lá dentro do mercado mesmo. Entre prateleiras e o caica. Os ovos estavam escondidos na blusa. E tudo foi logo devolvido.
Me puxaram eu. E arrastaram com um safanão pros fundos. Eu disse:
- Sei que errei. Foi só precisão. Daí que três boquinhas me pediram. Mas vou tarbalhar e pagar. Faço qualquer coisa que mandarem. Só não me levem presa.
Ah, é? Me fecharam numa sala. E fizeram lá tudo que é tipo de coisa. Me xingaram de palavrão e nome de mãe. E assustaram com as barbaridades que iam acontecer.
Fui maltrada pelo gerente, muito grosso. A mulher lá, que também era chefia, por ela me deixava ir. Só que bruto não quis saber.
Daí veio o dono com a polícia de amarelo. O que não achei certo foi tiraren sarro de mim. Um deles falou:
-Ah, sua cadela, cê vê o delega que tá lá hoje!
Não é nada legal isso de ainda gozarem a minha desgraça. O que diz o doutor?
Já veio o camburão. E lá fui eu pro Distrito. Ih, que vergonha. Nunca antes fui processada nem presa. Me deram na mão do escrivão. Aí o delegado chegou e contaram tudinho. E não contaram direito.
O que eu comprei no Um Nove Nove levaram junto. Perdi Tudo. Lá se foi a margarina. E minhas duas gomas de mascar.
Barbina! Será que de falar isso aí...Não vai a polícia ficar com raiva de mim? Todo dia, já viu, tem gente que aparece mortinha. E ninguém sabe por quê.
É isso. Uma filha de 5 anos, um de 7, outro de 11.
Não tenho marido. Eu moro só com os tadinhos.
O pai é um malandro. Só vive namorando pela rua. Falei pra ele que, se me ajudasse, eu não carecia fazer isso.
- Agora vou presa. Cê fica com as três crianças.
E eu com essa condena aí
Ele é esperto e não paga pensão. Porque só escolhe mulher de idade. Tem 44, o safado, e gosta de pegar meninas de 60. Só coroa rica e viúva com apartamento.
Largou de mim, com 38,por uma de 65,já viu? Cê olha pra ele assim. Oh, é um advogado.É um juiz. Sempre de terno e óculo escuro. Me garantiu:
- Que nada, neguinha.Não se avexe.Eu arrumo um doutor do crime pra você.
Cê viu algum? Nem eu. Não me levou nadinha de rango lá na cadeia. Já falei que dou uma surra nele quando eu sair. O pilantra que se cuide.
Isso aí, chefia. Foi essa bobeira e deu errado.
Eu já tava na porta e a mais pequena perguntou:
- Aonde a senhora vai mãe?
- Pagar uma prestação - eu disse.
- Ah mãezinha. A senhora compra ovo de Páscoa, né?
E eu:
- Ih, filhinha. Ovo de Páscoa nem pensar.

Dalton Trevisan - Livro: Macho Não Ganha Flor - fragmento [pg.43/47]

Um comentário:

Sakana-san disse...

Carai, Ana... Esse post me fez lembrar do dia que flagraram uma mulher tentando roubar uma bandeja de posta de bacalhau e ela gritando desesperada que era para a sua filha! Sei lá, eu fico confusa... Por um lado eu tenho dó, pelo outro não é gênero de primeira necessidade e pior, estou de saco cheio de trabalhar feito uma mula de carga para vir um cidadão e levar tudo embora de mim. Fiquei com sentimentos ambíguos aqui.