sexta-feira, 25 de março de 2011

"Vestido Vermelho" Dalton Trevisan

Amor,
Comprei um vestido novo. (Nada como quem trabalha!)
O tecido é tão fino, parece que estou sem roupa. O mesmo vermelho que,segundo você, realça o brancor da pele e o loiro do cabelo. Ombros nus até a saboneteira, com o decote no limiar do abismo - além do qual você não aprova.
E onde está você para apreciá-lo, com teus mil beijinhos no pescoço? Eu aqui linda, só para te agradar.( Calcinha rósea rendada e sutiã de taça, o que por ora não precisa saber.)
E você, nada? Já não me quer?
Não te emocionam as coxas mais frescas e lisas que o vestido? Já não te apetece sopesar na concha da mão o seio de biquinho ereto assim a ponta fina de uma caneta Bic? Nem te comove a lua bochechuda da minha bundinha empinada? Nada te diz a concha nacarada de quatro pétalas? Covarde! Ingrato! Soberbo! Não sabe o que está perdendo.
Só me ver neste vestidinho faria você açular a fogosa matilha dos teus vícios mais perversos. E desmaiaria entre ais ao simples roçar do precioso tecido.
Já serpenteio o strip da Virgem Prometida ao Minotauro - e tudo mostro sem nada tirar. Requebrando no salto agulha, assim gostosa, frente e atrás, se você pedisse. Mas não pede. Me esqueceu para sempre? Pra você já não existo?
Ai, tua mão trêmula em cada curva, já pensou? Um sobe-e-desce de avanços e recuos. O terceiro quirodáctilo que negaceia... E a delícia única de ouvir: (...)
Daí me ponho de joelho e descerro o teu zíper com mais devoção que uma samaritana descalça. Isso mesmo:(...) Em adoração, eu beijo dardejo lambo. E a-bo-ca-nho com toda a gentileza. É meu quindim de Tia Ló! E lambisco e mordisco tamanha doçura que já me arrepia lancinante o céu da boca. (...)
Quero sentir os teus beijos pelo corpo me ungindo com o mais afrodisíaco dos óleos. Quero mordida doída na bundinha em flor. Do macho a gente espera fatal!(...) Me lembrei que gostoso era você me abraçar pelas costas. O corpo bem juntinho ao meu. E, abrindo passagem na longa cabeleira, o beijinho na nuca. A pressa nenhuma. A mão no seio no seio no seio. De olho fechado para sentir melhor o amasso do corpo, o beijo na nuca.
E o beijo na boca. Choradinho. O toque da língua. A língua na língua, saboreando. A língua no dente. O dente no lábio. O gosto de sangue no beijo.
E lembro que você apreciava deslizar a mão viageira coluna abaixo. Uai, na bundinha. E ali ficar acima abaixo. Por cima da roupa, por baixo da roupa. Sobre a calcinha, debaixo dela. Ai, nem quero pensar. Era suor palpitação calafrio vertigem. (...)
Todos os suspiros e gemidos e delírios. O coração aos gritos no meu cravo violáceo despetalado. Tem coragem de afirmar que nessa hora já não levita entre os lençóis, sai rasante pela janela, flutua sobre os telhados da Praça Tiradentes? Feliz de minzinha, engatada, lá vou eu - e lá vamos nós, xifópagos do amor, pisando as nuvens distraídos.
Nunca mais abraço cafuné mordida tapa amasso agarro beijo nó górdio de língua? Deixa de ser bobo, homem! Ao menos fala se gostou do vestido. (sob ele, me quer de meia preta e liga roxa? Pronto! já me antecipei ao seu desejo.) Dá um beijo na boca, poxa! (...) E esta rosa de febre com a boquinha úmida que geme e grita o teu nome - você já não escuta?
Que fim levou a tua paixão de amor louco? Em que velho sapato se esconde a aranha-marrom do teu desejo?
Onde chamas dessa luxúria que tudo incendiava à sua passagem? Que água apagou esse fogo? Que boi bebeu essa água? Que passarão colosso arrebatou esse boi?(...)
Basta que eu te olhe. Nem chego perto. Do outro lado da cama.
No deslumbrante vestidinho novo. Comprei com o meu dinheiro contado. Só pra ficar linda aos teus olhos.
E sem você, ó puto dos meus pecados - coberta de púrpura ou nua em pêlo -, pra que ser linda?
Maldito vestido vermelho.

Dalton Trevisan - Livro: Macho Não Ganha Flor - fragmento [pg.19/25]

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