domingo, 15 de janeiro de 2012


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" Mal-estar na cultura, mal-estar frente à miséria de um país do chamado Terceiro Mundo, riscos de paralisia, de cair num discurso político esvaziado, de indiginação tornar-se apenas retórica - como agir, o que fazer?"

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( Isabel da S.Kahn Marin )



, era franzino. Tinha olhos de jabuticaba, puxadinho, se fosse branco diriam que é japonês. Sabe quando não se vê a irís? De branco os dentes, o entorno da jabuticaba e o sola dos pés. Era sério, pequeno para a idade que a mãe dizia ter, na verdade era desnutrido. Mal comia. A primeira vista detrás da porta, semi-escondido, um oi e não respondia, só olhava. Tinha mais três irmãs, uma de colo recém-nascida, outra com diferença de meses e a mais velha cerca de 1 ano e meio. A mãe era alta, negra, típica negra de escola de samba. Desfilava o corpão nos corredores. No sobrado, onde tinha quatro casas, uma do lado da outra, mais o bar. Difícil o ver brincar, não sei por quê, só vivia trancado. A mãe com sorriso largo, dizia - o Neno não sabe brincar, estúpido, bate em todas as crianças, não tem jeito, por isso deixo em casa. Engraçado, era franzino, mas de fato conseguia machucar outras crianças, tinha força no braço. A força lançada sobre outros, força que não podia dar em maiores. Mal sabia ela, ele era um doce. Adorava comer bolo da dona Neti. Devido a língua presa, falta de fonoudiólogo, tratamento e atenção, enrolava com os eles, os eres, e de quase tudo que falava ninguém entendia nada. Era fácil lidar com ele, bastava abrir sorriso, pegar na mão mufininha e dizer - bora brincar Neno? Ele ria, ria. E perguntava - brincar tia? Era doce, mas de repentina ação de violência. Surtos de ataques a quem já o tinha machucado, ou quem se aproximasse de quem estava dando atenção. A solução da mãe que no idem sofria destes ataques e para além tinha a paciência restrita, era devolver os ataques, puxava-o pelo braço, arrastando a pancadas. Daí era para a cozinha e a sessão de gritos. E falas dos vizinhos dizendo - não faça isso com o menino. Irritava profundamente aquilo, aproximação maior era para cuidar da irmã menor, aquela do colo, dar atenção as outras e olhar o Neno. Bastava sorrir para ele, e algo se transformava, era atenção, algo que não tinham. Na roda, no nervoso nas escapadelas do marido e da força que vezenquando exercia sobre ela com tapas, socos todos apanhavam, elas e ele, mas o Neno sempre apanhava mais. O pai sempre desempregado, era bico de pedreiro prá lá e pra cá. Ela era faxina, e quando ia deixava-os trancados. A noite era socos na parede, não na verdade era a cabeça, percebia pelos galos noutro dia. Também era espancado pelo pai, o Neno as meninas não eram só palmadas. O coração na mão, perguntava - porque você não deixa a chave, uma cópia, assim a Léria os olha, cuidamos deles, deixamos brincar um pouco. Não respondia, não quero meus filhos na rua, senão viram bandidos. Então o jeito era acenar do vitrô da cozinha, fazer gracinhas e ouví-los - tia abre a porta, a gente quer sair. silêncio e aquele - ah vamos brincar assim, desse jeito é mais legal. Não era, estressava-os tanto, e nem sempre havia horário para brincar. Como não era o dia inteiro, no inicio da tarde ela chegava, abria a porta e tanto a maior quanto menores saiam correndo, para brincar. Ele sempre era o último, e às vezes dizia - eu vou fugir e corria até deixar a mãe brava. Mas se porventura a porta estivesse aberta, se fosse cheiro de bolo, sentava na quina, olhando de rabo de olho. A Nite perguntava - quer bolo? Respondia balançando a cabeça e sempre assoprando, nos dedos. Eram os poucos momentos que sossegava, na maioria agitado, pilhado. Só bem depois entendia porque a Nite fazia bolo todo fim de semana, era por causa dele. Passou anos, ele cresceu na idade, porque na estatura tinha problemas, era mirrado mesmo. Continuava agressivo, violento. E vivendo o cotidiano de sempre, a violência. O único diferencial a existir, eram os maiores o fazendo repetir, em tom de brincadeira o que ele iria ser quando crescesse, em idade. Se o vissem brincando, sorrindo ou não diziam - muleque capeta, quando crescer será ladrão. Era atropelo, no portão quando vinha correndo era segurado pelo braço e questionado - ei Neno o que você vai ser quando crescer? Ele respondia: ladrão! Tempos, encontro conhecido-amigo, pergunto da Vila Mariana, das novidades, dos tempos atrás. Sou atualizada de tudo e todos, fico cerca de quarenta minutos ouvindo e repetindo: caramba já aconteceu tudo isso! Responde: pois é você sumiu, não visita mais ninguém esqueceu dos amigos, das famílias, da Vila. Até chegar a ultima notícia, sabe da última? O Neno filho da Valéria ta na febem. Segundos de silêncios e o filme na cabeça. Girou. Pergunto quê? Como assim? O Neno, o pequeno Neno, o da Vila Prudente? Responde sim, elenca a série de correrias, milhares de situações que já estava acostumada a ver/assistir com amigos que perdi, nessa vida. Disse que fugiu de casa decorrente da ultima surra do pai, ele tinha 08 anos de idade, vivia na rua, aos arredores da Vila, nos escadões, vivendo da caridade e atenção dos mangas, traficantes. Ao saber, tentei por diversas vezes achar a mãe, saber da família, não consegui. Queria saber onde estava queria visitá-lo, olhar nos olhos de jabuticaba, vê-lo sorrir e ouvi-lo dizer- oi tia! Foi a reação que teve na última vez que nos vimos, depois de ouvir o sermão da montanha e repetir - caramba quanto tempo! você continua pequeno, mesmo jeito, sorriso e olhos pretos, ainda gosta de bolo? respondia rindo - não tia, só do bolo da Nite! Infelizmente não consegui, não sei se ainda está vivo, se ainda existe, mas lembrei dele desde ontem. Quando no ato, vi um menino com mesmo jeito dele. Me aproximei, sorri, se fosse ele me reconheceria, na dúvida perguntei idade, talvez fosse, mas não, novo demais para ser. O garoto me chamou atenção por dois motivos, se parecia muito com o Neno e pelo interesse em saber porque estavámos ali. Então se aproximava de um de outro, perguntava, tirando dúvida, carregando bandeira, soltando bandeira, pegando cartaz, soltando cartaz, sem entender nada, sorria. Feito o Neno que eu conheci.

ps: inquietação do núcleo de violência (bendito núcleo, faísca a mente insana) e livros Violências da Kahn (maldito livro da subjetividade) e Vigiar e Punir (agora fico louca de vez, Foucault e as intemperies!) e por último, a vida. Escrever liberta, permite alguma paz, é jeito/forma de existir.

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